sexta-feira, 7 de julho de 2017

Um jardim de possibilidades

Era uma vez uma turma de terceiro ano e uma professora que se encontravam todas as manhās em um lugar mágico e especial. Nesse lugar coisas incríveis podem acontecer, como por exemplo, fazer um lindo jardim. Mas é nāo um jardim comum, de pessoas comuns, em um lugar comum. É um jardim mandala feito por uma turma de terceiro ano e uma professora, que se encontravam todas as manhãs em um lugar mágico e especial: na Escola do Sítio! 
Essa é uma história de um tempo que ficou nas páginas de um velho livro de memórias e ela tem raiz profunda, no lugar mais especial do nosso “ser”. Esse lugar é invisível e lá construímos uma enorme “obra de arte” que se chama APRENDIZAGEM. Ninguém pode ver, tocar, roubar ou vender essa obra porque ela se constroe dos fios mais preciosos do mundo: de vivências, de signos, significados e afetividade.
E nesse ano especial de 2013, aquela turma que eu falei no início dessa história, decidiu construir com cores, cheiros e vida que brota, um pedacinho dessa obra magnífica que nos faz humanos: o conhecimento. Tudo começou por conta do nosso objeto disparador, o caleidoscópio, que fez girar e reelaborar o sentido das coisas que víamos naquele momento. Foi por causa dele que aterrizamos no estudo das mandalas e do seu significado milenar. E nesse caminho de construção/desconstrução que o trabalho com projetos possibilita, chegamos ao filme “A chave do Universo – Mimzy” (PlayArte).
A turma gostou muito do enredo, se emocionaram, fizeram várias perguntas sobre o filme e quiseram levar a história para casa e mostra-la à família. Ficamos alguns dias conversando sobre os detalhes da aventura e curiosos para entender melhor alguns assuntos. Por isso, convidamos a diretora Cida (que também é professora de Ciências) para explicar sobre o Buraco de minhoca, que não tem nada a ver com aquele bichinho que encontramos na terra e sim, uma fantástica teoria sobre o tempo (passado, presente e futuro).

Com o filme, também pudemos retomar o assunto das Mandalas (origem e significados) e aproveitamos para assistir a um documentário incluso no próprio DVD sobre esse símbolo sagrado. Havia uma mandala muito antiga que chamou a atenção das crianças e essa imagem apareceu (re)significada na forma de desenho em outros momentos, em outros registros feitos pelos alunos  
Uma outra imagem do filme que nos chamou muito a atenção foi uma belíssima mandala de flores, a qual aparecia no início e ao final. Ela era linda e colorida, e essa mandala se desfazia em pétalas que voavam. Ficamos encantados! E pensamos: vamos construir um jardim mandala de flores?
E assim, nesse girar de caleidoscópio, onde as mesmas peças se transformam e compõem novas imagens, iniciamos um novo ciclo de trabalho. Planejar, pesquisar, entender, conhecer, questionar, fazer/realizar e avaliar foram os aspectos norteadores de todo esse grande trabalho. 
Para as crianças de hoje, o fazer imediato é o que prevalece nas atividades escolares e em casa também, e ao mesmo tempo, esse imediatismo também é o que desanima e desmotiva os alunos, pois estão em busca desse “algo novo” a cada minuto. Hoje em dia, janelas virtuais se abrem com infinitas informações, imagens e interatividade; tudo acontece de forma rápida e se perde com a mesma rapidez! Por isso, a minha intenção nesse projeto com o jardim era fazer com que a turma elaborasse esse trabalho com mais tempo, para que pudessem perceber que realizar um trabalho como este que estava sendo proposto, exige um “mergulho”, um tempo de imersão para a elaboração de sentidos (usando os “sentidos”). Tentamos sair da superficialidade dos tempos modernos e nos voltamos para a observação da natureza.
Eu corria o risco de que desanimassem, porque eles queriam plantar as flores no jardim com a mesma rapidez dos videos do Youtube, onde você acelera o tempo para ver a coisa acontecerem imediatamente. Porém, a cada dia eu podia ver o mesmo brilho nos olhos, a mesma vontade latente de saber mais para poder construir da melhor forma o nosso jardim mandala.
Após levantar o conhecimento prévio da turma sobre “o que precisamos para fazer/ter um jardim”, começamos a buscar pela escola, qual seria o melhor lugar para plantar. As crianças tiveram como primeiro desafio observar, em duplas ou em trios, possíveis espaços propícios para o cultivo das flores. Para isso, coletaram amostras de solo e também tiveram que fazer o registro de alguns itens, como: iluminação, passagem de pessoas, plantas que já havia ao redor, tamanho do lugar, etc. Ao final dessa busca, fizemos uma reunião e compartilhamos nossas primeiras descobertas. 

Em seguida, contamos com a ajuda da Professora de Ciências da escola, Marina Reiter. Ela nos levou ao laboratório e nos auxiliou na análise do solo que coletamos. Aprendemos como a terra precisa estar para que as plantas possam crescer saudáveis; utilizamos novos termos como: grãos e grumos, úmido e seco. Pudemos manusear instrumentos de pesquisa como a lupa e o microscópio.


Nesse ponto do trabalho já tínhamos as informações necessárias para fazer a escolha do melhor lugar para plantar nossas flores do jardim mandala. Assim que o espaço foi definido, passamos a observá-lo com “outros olhos”! Fizemos uma delimitação do lugar e registramos suas medidas e características. Cada criança escolheu uma forma de medir: usaram passos largos ou curtos, palma da mão, dedos (polegadas) ou os pés e assim, criaram uma forma de representar essa medida. Com isso, iniciamos uma conversa sobre os padrões de medidas e o porquê da sua utilização. Também exploramos o desenho do espaço do jardim visto de cima e de frente, ou seja, o estudo da perspectiva.


A turma estava envolvida com o trabalho e muitas coisas interessantes surgiram em nossas rodas de conversa: a flor da casa da vizinha, o jardim da avó, o bate papo com o jardineiro, livros e revistas, a simetria das flores e folhas, sementes curiosas, etc. Mas a pergunta crucial sempre estava presente:  Lívia, quando que nós vamos plantar? Para não desanimar as crianças, sugeri que fizessem uma pesquisa sobre as flores que achavam bonitas e que seriam possíveis de se plantar em nosso jardim mandala.
Eles ficaram muito animados e se empenharam na realização da proposta no final de semana: trouxeram cartazes, apresentação em PowerPoint, revistas, fotos, desenhos, poesias e canções. Organizamos uma apresentação dessas informações e montamos um mural informativo com sugestões de plantas e flores para o nosso jardim. Um material rico para pesquisa e para tirar dúvidas que pudessem surgir em nossas conversas na sala de aula.
Percebemos que precisávamos ampliar nossos saberes sobre as plantas, sobre seus gostos, seu modo de viver, de se alimentar, etc. Para isso, voltamos ao laboratório de Ciências e reencontramos a professora Marina Reiter, que nos auxiliou em mais uma experiência: mostrar como se inicia uma planta, ou seja, o que acontece no processo de germinação. Colocamos sementes de girassol em tubos de ensaio com terra boa e esperamos para ver o resultado. 



Acompanhamos dia a dia as mudanças e fizemos um registro, mas... não deu muito certo, nada acontecia! Algumas sementes apenas incharam e assim, as crianças também aprenderam que, fazer pesquisa é lidar com a validação ou não das suas hipóteses! A Marina nos ajudou e fizemos um novo experimento: colocamos outras sementes de girassol em tubos de ensaio com algodão molhado. Será que agora veríamos alguma coisa? Só que a Semana Cultural chegou e nos envolvemos com a programação... As sementes não nos esperaram e cresceram rapidamente! Mal deu para ver o processo “passo a passo”. Mas ninguém desanimou não! Observamos, comparamos e registramos aquilo que foi possível de se ver. Conferimos se os textos que lemos traziam as informações corretas sobre a germinação e validamos nossas hipóteses usando o conhecimento científico disponível para a pesquisa. 
Não satisfeitos com a germinação do girassol in vitro, decidimos plantar as sementes trazidas pelo grupo, pois havia muita coisa: tomatinho cereja, milho roxo, almeirão, rabanete, amor perfeito, etc. A Marina preparou as garrafas pets com terra boa para o plantio e construímos um “berçário”, em forma de mandala, claro! Ele ficou em frente a nossa janela. Para algumas crianças, essa foi a primeira vez que plantaram uma semente!



Só que lidar com as coisas na natureza requer paciência e muitos cuidados... Nosso berçário gerou curiosidade em todas as pessoas que passavam por ali! Então, nem todas as sementes puderam germinar ou porque foram mexidas pelos humanos ou porque foram afogadas pela chuva. Algumas saíram das garrafas e foram parar no chão! Todos esses acontecimentos de sucesso ou frustração foram sempre conversados em sala de aula. Cada novidade, folhinha que brotava, inseto que rondava, invasões de alunos, entre tantas outras coisas, eram assunto para as nossas rodas de conversa no início de nossos dias.
E esse Jardim Mandala, sai ou não sai? Havia muitas indicações de flores em nosso mural e cada um queria plantar a flor do seu gosto. Mas como? Um girassol gigante no centro? Uma espada de São Jorge para proteger o jardim? Uma roseira de quase 2 metros? Não! Não! Precisamos definir alguns critérios!
Em uma das revistas sobre jardim, trazida por uma criança da turma, encontrei a matéria que trazia informações sobre um espaço desenhado com flores, ou seja, havia certa forma naquele jardim! Esse texto continha o nome científico dessas flores, fato que nos auxiliou muito neste início de escolhas. Li a matéria para a turma e eles acharam aquele jardim um tanto interessante.
Utilizamos também um guia de flores trazido por outro aluno e vimos que cada flor tinha uma ficha técnica, a qual trazia muitas informações importantes sobre ela. Analisamos esse tipo de texto e observamos as suas características. Tomamos como exemplo duas flores: Beijinho e Onze horas. Percebemos que essas seriam flores possíveis de se plantar em nosso jardim. Em uma lição de casa, as crianças tiveram que preencher a ficha técnica de algumas flores, pesquisando na internet pelo nome científico. Também puderam escolher outras que julgassem possíveis de plantar.
Com essa pesquisa, juntamos um vasto repertório de flores e agora era só escolher. Tão simples assim? Claro que não!
Levantamos os critérios para a escolha da flor: altura, luminosidade, quantidade de água e floração. E ao fazermos isso, esbarramos em uma questão de medida da altura das flores. 
O zero a esquerda e as crianças pequenas
Começamos a conversar sobre a primeira ficha técnica trazida por um colega. Foi aí que o assunto prosperou:
Professora: A flor se chama Borboletinha e tem 0,3 metros de altura. O que vocês acham? Ela atende aos critérios? 0,3 metros é uma boa altura? Quanto é 0,3 metros?
                As crianças mostravam o tamanho usando as mãos, levantando suas hipóteses.
Aluna: Olha, eu não sei que tamanho é, mas sei que tem menos de um metro!
Professora: Por que é menos? Como você sabe?
Aluna: Começa com zero!
Professora: Mas quanto tem um metro?
Aluno: 100 centímetros!
Professora: Vocês concordam?
Todos: Sim!
Professora: Bem, então antes de qualquer coisa, vamos apurar essa informação!
Iniciamos o trabalho de montagem de uma fita métrica. Utilizei como referência a proposta do livro didático Matemática Paratodos (IMENES, Luis Márcio. Matemática Paratodos: 2ª série. São Paulo: Scipione, 2004), a qual tinha como objetivo colar as tiras da fita métrica para depois contar os centímetros (10 cm a cada tira). Logo que as fitas ficaram prontas, automaticamente, começaram a medir portas, mesas, colegas, etc. 
                 Depois, voltamos a conversar:
Professora: Essa fita tem quantos centímetros?
Todos: 150 centímetros! – 15 tiras de 10 cm
Aluno: Tem mais de um metro. Ela tem um metro e meio!
Professora: E como escrevemos isso usando números?
Aluno: 1,5
Professora (anotando na lousa): Tudo bem! O 1 representa o quê?
Todos: 1 metro
Professora: E o 5?
Aluno: Metade de 1 metro. 50 centímetros!
Professora: Vocês concordam?
Todos: Sim! - olhando e dobrando a fita métrica que fizeram.
Professora: Se 1,5 é um metro e meio, quanto será se eu tirar o 1 e deixar assim? - escreve 0,5 na lousa.
Todos: 50 centímetros
Aluna: Peraí! Se 0,5 é 50 centímetros, como a gente escreve 5 centímetros?
Professora: E aí, o que você acham?
                Nesse momento a turma começou a levantar suas hipóteses e eu anotava tudo na lousa. Eles falaram 50, 15, apenas 5... mas não estavam satisfeitos. Até que um aluno comentou:
Aluno: Ah, deve ser 0,000...5!
Professora: Como assim? Explique melhor!
Outro aluno: É! Lembra daquele texto da menor semente do mundo, da orquídea, que era 0,0000...?? Deve ser assim.
Aluno: 0,005... Não! 0,05.
Professora: Vocês concordam com ele?
Todos: Sim!
Aluno: Se era 0,5 e o 5 valia 50. Agora 0,05 tem o zero e ficou 5! 5 centímetros!
Aluno: Igual as casas de dezena e unidade.
Professora: E quanto vale 0,3 metros da flor Borboletinha?
Todos: 30 centímetros!
Professora: E quanto é 0,03 metros?
Todos: 3 centímetros!
Professora: Tem uma outra coisa que nós usamos sempre, que também tem essa mesma representação. Alguém sabe?
Aluna: Moeda, dinheiro, centavos! 0,50 centavos ou 0,05 centavos.  
                  As crianças registraram essa descoberta com desenho e escrita. Prosseguimos com o trabalho de seleção das flores e das medidas do espaço onde faríamos o plantio das mudas. Encontramos a medida do nosso jardim mandala utilizando barbante, réguas e a fita métrica que confeccionamos.
Em uma tabela fizemos o levantamento das flores pesquisadas, se elas atendiam ou não os critérios de seleção e, dessa forma, tínhamos uma grande lista de possibilidades para o plantio.
Então, a turma do 3º ano realizou o estudo do meio no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), com o objetivo de complementar e ampliar ainda mais tudo o que estudamos sobre as plantas. Nem a chuva fina atrapalhou a animação das crianças, pelo contrário, as minúsculas gotas de água deixaram a paisagem bonita e cheirosa. 


As crianças puderam aprender mais sobre o cuidado com a terra e como deixar o solo fértil para cultivar as flores. Conheceram novas sementes e plantaram mais árvores que farão parte da imensa coleção que já existe no IAC. Sentiram o cheiro das ervas aromáticas, tomaram suco de capim limão, conheceram e experimentaram o cacau. Também puderam fazer muitas perguntas para os biólogos que nos acompanharam nessa visita. 
Mas a natureza sempre reserva suas surpresas, como: uma lesma desfilando vagarosamente, marcando seu imenso caminho com um risco de gosma. Ou um filhote de gavião assustado, mostrando o machucado em sua asa. E também, um lindo tucano voando sob a garoa.
Após essa visita, já havíamos cumprido com o nosso planejamento elaborado no início do nosso trabalho com o jardim, e chegava a hora de escolher as mudas, comprar e plantar. Mas antes, fizemos uma reunião em volta ao jardim para estimar quantas mudas caberiam ali. Cálculos e mais cálculos! Quem estimaria o valor mais próximo? Anotamos tudo em uma lista!
A ida ao CEASA ficou para as professoras e lá passamos horas olhando com carinho as mudas, pensando na pesquisa das crianças, em nossas conversas e nesse gigantesco projeto. Escolhemos com cuidado cada florzinha, aprendemos coisas novas com os produtores de flores e viemos carregadinhas de cores e aromas de volta à escola.
A alegria foi tamanha quando a turma viu as caixas com as mudas e foram reconhecendo as flores, perguntando nome, cheirando, comentando... Fizemos uma roda da conversa especial sobre as mudas, a quantidade, preços e combinados para o plantio. Utilizando os desenhos (esboços) de cada um, de como imaginavam o jardim mandala, discutimos sobre a melhor forma de compor as flores e plantar as mudas.
Depois, mãos à obra! Chegou a tão esperada hora de plantar as nossas mudas no jardim mandala. O cheirinho de terra molhada estava delicioso. Os mosquitinhos voavam desesperados e as pessoas que passavam pelo canteiro paravam para prestigiar esse grande momento. Primeiro, medimos novamente a mandala e desenhamos com barbante a forma escolhida. Em seguida, definimos a quantidade de mudas respeitando o espaço necessário entre cada uma delas e a simetria da mandala. 






Palavras são vazias perto da incrível alegria e satisfação que nos preencheram naquele momento... 
Missão cumprida? Claro que não! Para essa turma parecia que aquele seria o marco para mais um novo ciclo de perguntas, conversas, estudos... Nunca tem fim!!! Essa é a obra mágica que construímos em nosso ser; a aprendizagem é como um rio que corre sem freio para desembocar no mar e depois vira vapor de água, chuva e rio outra vez. Essa mágica de aprender acontece quando há escuta e quando damos importância às perguntas e observações das crianças.
 Ainda tínhamos uma tarefa a fazer: mostrar para a escola o nosso enorme trabalho conscientizar a todos sobre a importância de não estragar o que fizemos. Começamos então a planejar a inauguração do jardim mandala. 
Quando estávamos no IAC, uma aluna, ao ver uma placa informativa da Citronela, sugeriu que fizéssemos o mesmo com as nossas flores e tiramos uma foto da placa para podermos ter um modelo. Assim, iniciamos um trabalho de pesquisa – primeiro individualmente e depois em grupos – para levantar mais informações sobre os cinco tipos de flores do nosso jardim (Crista de galo, Petúnia, Onze horas, Verbena e Álisso). Fizemos a leitura das pesquisas, confrontamos alguns dados, selecionamos a melhor informação e criamos as nossas placas informativas.




Com as placas prontas, só faltava pensar na cerimônia de inauguração. Para isso, a sala se dividiu em grupos para realizar as tarefas: um grupo ficou responsável pelos convites e o outro, em fazer a cerimônia. Conversamos sobre o que é uma inauguração, para que serve e o que as pessoas costumam fazer nesses eventos. Dessa forma tínhamos uma referência para pensar em nossa apresentação. 
A turma encarregada dos convites fez vários esboços, pensaram em datas e horários para atender todos os segmentos da escola e elaboraram um mapa para localizar os convidados. Trabalharam em equipe elegendo o trabalho mais adequado e criaram novas possibilidades sobre ele.


Os alunos que pensaram na apresentação se dividiram em subgrupos: votaram em quem seria o mestre de cerimônia; uma dupla ficou responsável em escrever o texto que contava a história do jardim, um trio ficou de falar sobre as flores, outro grupo se encarregou de escolher uma das nossas canções favoritas e uma dupla escreveu sobre as regras do jardim. Muito ensaio e empenho para fazer da inauguração um momento único! 

Fizemos também uma pesquisa de opinião: qual é a flor do jardim favorita da escola? Entrevistamos alunos, professores e funcionários. Trabalhamos no tratamento das informações, organizando em tabelas e montando gráficos. A flor Crista de Galo ganhou em disparada!



E agora, acabou? Para essa turminha que é insaciável de saber e de fazer, não! Inspirados no texto feito para a cerimônia que contava a história do jardim, decidimos escrever um livro individual que registrasse toda essa deliciosa aventura.  As crianças revisitaram seus cadernos e produziram seus textos; depois em duplas, seguindo um roteiro de revisão, mudaram e arrumaram o que era necessário. Passaram a limpo e dividiram o texto em seis partes para preencher as páginas do livro. O livro?! Era redondo como uma mandala, como o jardim e como o caleidoscópio.
Em nossos trabalhos na Escola do Sítio, sempre envolvemos as famílias das crianças ou porque os pais tem algo interessante para agregar ao projeto, ou porque querem participar de alguma forma desse momento tão importante, que é a vida escolar do filho. Como é bom ter alguém de “casa” na escola! Como é bom estreitar laços afetivos nessa rede complexa do aprendizado! 
Para ilustrar a capa e as páginas do nosso livro sobre o jardim mandala, a
mãe de um de nossos alunos nos presenteou com uma oficina de Origami, na qual fizemos mandalas de diversas formas e também flores de dobradura. “Mágica com papéis”, foi o que disse uma criança encantada com todo aquele trabalho. 

Contamos também com a visita da avó de uma aluna da turma, que nos presenteou com a história do “Jardim de Aninha”. Com muita poesia e beleza, a história dessa menina encantou a criançada, pois Dona Vera trouxe os bordados originais que ilustraram seu adorável livro. Uma obra de arte feita com tecidos e pequenos objetos! 


Após ouvirmos a história e apreciarmos os bordados, trabalhos com os teares feitos de isopor. Trançamos comentários de carinho, desatamos alguns nós, colorimos com diferentes texturas essa relação afetiva, experimentada a cada momento do nosso ano. Também aprendemos a fazer florzinhas para compor o nosso livro redondo sobre a história do jardim mandala. 
E assim, a cada girar do caleidoscópio da vida, mudamos as composições que fazem de nós aquilo que realmente somos. Ser, fazer, compreender e transformar! Com tudo isso que vivemos neste ano, plantamos em nós sementes de flores coloridas; algumas já brotaram e outras não sabemos quando florescerão. Mas, certamente, esse jardim mágico de cada uma dessas crianças fez de mim uma professora muito melhor.




quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sobre o amor que nunca envelhece


Alô, mãe?! Tudo bem??? Parabéééééns! Feliz aniversário?! Quantos anos mesmo?! Nossa!! Já?! Poxa vida, mãe! Está quase perto dos setenta!!! Que coisa mais estranha isso... quando fecho meus olhos e penso em você, posso te ver... eu acho que com quarenta. Naquele tempo em que éramos ainda tão pequenos e que eu cabia no seu colo sentada, deitada, e até em pé (talvez). 
Isso mesmo! Você lembra quando você contava que era tão magra, tão magra que eu nem cabia no seu vestido de noiva aos 15 anos?! E o seu anel de formatura? Aquele que você me deu quando eu também resolvi ser professora como você? Tivemos até que aumentar... seu dedo era tão fininho!
Poxa mãe, ainda lembro quando eu brincava de usar seus sapatos número 34!!!! Eu acho que estava com uns 10 ou 11 anos.
O tempo tem esse jeito engraçado de levar as coisas embora, de mudar o jeito de viver, de modernizar a vida e de separar fisicamente as pessoas que tanto amamos. O tempo transforma, mas acalenta. Leva embora, mas te acostuma com a ausência. Ele tenta compensar a dor da saudade com a nossa capacidade de se acostumar com os fatos.
O tempo é esse cara que hoje te fez mais madura, com seus sessenta quase setenta. 
Só que ele pensa que pode envelhecer tudo?! Não, não! Ele não envelhece nunca esse amor que existe entre uma mãe e seu filhos. 

Por isso sempre dizemos: um filho será sempre uma criança para sua mãe. Assim como uma mãe, será sempre jovem o suficiente no coração do seu filho! Sempre, ao fechar os olhos, podemos sentir o frescor do sorriso de uma mãe, sua disposição e entrega para cuidar e preocupar-se com suas crianças. Uma mãe sempre terá o colo do tamanho da saudade que um filho pode sentir. E o abraço mais forte, mesmo quando não há mais forças para abraçar.

Alô mãe, você está aí ainda? A ligação está ruim, não estou te ouvindo?! Desculpa, estou com o choro engasgando a minha voz aqui também. Não tem jeito, mãe! Pensar em você assim tão longe, sem poder te dar o abraço que está guardado há mais de um ano, me faz não conter as lágrimas.
Mãe, aproveite o dia de hoje. Faça aquele bolo que você sempre fez em todas as festas, convide seus amigos, reze com a turma do terço e agradeça à Deus, por mim, PELA A SUA VIDA e por esse amor que há entre nós, que nunca envelhece.
Ah, e nunca se esqueça: eu te amo desde o primeiro respirar aqui na Terra. Não, não! Desde a primeira batida do meu coração dentro do seu ventre! Não, não! Acho que foi antes mesmo de você ser escolhida para ser a minha mãe.
Um beijo grande! Tchau, mãe.
Agora pode desligar!


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Carta para o amigo que não verei mais


Não sei muito bem como começar essa carta, talvez porque eu não saiba o que realmente é uma carta e também nem saiba como escrever. Sim, ainda não sei escrever uma frase se quer porque na escola andam nos ensinando letras e sons de algumas palavras. A nossa professora, você se lembra dela ainda? Então, ela não conseguiu sequer arrumar uma tradução para a palavra saudade! Muito menos me ajudar a colocar em um monte de letras esse negócio esquisito que estou sentindo depois da sua despedida. Acho que você não conhece essa palavra também... na Coréia existe isso, saudade?
No Brasil nós sentimos muita saudades... saudades da família, da comida, da praia... e eu, agora sinto saudades de você. 
É que você foi o primeiro amigo "de verdade" que eu fiz aqui. Digo de verdade, pois você é da minha idade, da minha escola, da minha sala de aula e também do meu quintal. Isso não lhe parece perfeito para um amigo de verdade? Sim, esse era você aqui. 
Sei que a culpa não foi sua. Nem minha. Acho que essa ideia maluca dos nossos pais em sairem pelo mundo procurando um jeito novo e melhor para se viver foi o motivo de tudo isso.
Primeiro eles escolheram viver longe das nossas famílias e nós sentimos a tal saudade. Depois, quando a saudade já ficou mais mansa, que a gente conhece gente nova e legal, eles decidem voltar para onde nós nascemos (ou para outra cidade). E aí a gente sente saudade outra vez, daqueles que deixamos naquele velho lugar.
Você acha bom viver assim? Você acha bom chegar em um lugar sozinho, sem amigos e depois que os encontra, precisa se despedir outra vez?
Não sei se acho bom ou ruim. Agora, aos 5 anos, não sei pensar sobre isso muito bem. Não sei sequer dizer o que sinto aqui dentro de mim quando entrei na nossa sala de aula hoje e você não estava mais lá. Era um aperto dolorido, que deixou minha barriga gelada, minha cabeça confusa... com quem eu iria brincar e sentar junto? 
Sabe Donny, as escolhas que nossos pais fizeram talvez sejam incompreendidas agora, mas depois pode ser que algo bom aconteça para nós. Teremos amigos espalhados pelo mundo! 
Outra coisa meu amigo, nós aproveitamos muito cada minutinho que passamos juntos. Rimos, corremos pelo barranco, nos acidentamos, choramos, pedimos desculpas, nos entendemos sem ao menos saber falar a mesma língua. Porque a amizade é algo que não precisa de muitas palavras! A gente entende com o olhar, com a simples companhia.
Meu quintal vai ficar vazio por algum tempo. E esse tempo vai passar também e vai ajudar a curar esse aperto que eu sinto no meu peito. 
Se alguém na Coréia te perguntar o que significa SAUDADE, diga que é ver a casa do grande amigo vazia, o quintal sem companhia e seu "cub" sem a mochila. Isso é saudade!

Boa sorte amigão!
Nos veremos via Skype, FaceTime, Coréia, EUA ou Brasil.
Somos do mundo e com certeza nos encontraremos por aí!
Lucas Leiria
(Se pudesse usar as palavras hoje!)

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Making off do episódio...

Ontem, na mesa do jantar, Lucas preocupado pergunta:
- Mãe, quantos os dias o Donny vai ficar longe? - e mostra todos os dedos de sua mão, - tudo isso de dias, mãe?!
Eu respondo:
- Ichi filho, vai ser muito mais que isso. Será como a Clara e a Betina, faz tempo que elas foram e não voltaram, né?! Mas deixe o João, seu irmão mais velho e experiente te ajudar com esse assunto. Ele já viveu essa situação algumas vezes. Diga algo para o seu irmão, João.
- Eu acho que eu não passei por isso, mãe - diz o João - Os amigos que eu deixei no Brasil eu sei que posso encontrar outra vez quando a gente voltar. Mas o Lucas, .... , (pausa, longa, doída e já pressentindo o que estava por vir) ... Lucas não vai ver mais o Donny PARA SEMPRE.

Ok! Obrigada João pela sua super ajuda e agora, vamos ver se a Helena terá algo a acrescentar!!!!!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Que espírito é esse?


        Noite fria e chuvosa na mata. Ouço os primeiros pingos de chuva a cair e a fazer aquele barulhinho bom que me remete a um lugar já conhecido na memória, no tempo da minha infância. Não consigo mais pegar no sono porque meus pensamentos buscam a familiaridade desse som contínuo da água batendo firme na lona dessa barraca. Lá fora, só o barulho do movimento das folhas das árvores e dos pingos a encharcar o chão dessa enorme floresta. Mas que lembrança é essa? 

Viro para o lado e vejo meus filhos dormindo um sono de paz, todos envolta de mim e do meu marido que respira fundo e continuamente. A chuva segue seu ritmo, agora mais forte e o barulho da água caindo nem os acorda… mas, eu sigo buscando a lembrança desse som familiar. Bastou olhar para cima e pude reconhecer que esse era o som da barraca que minha mãe montava no quintal e, que nos dias de chuva, era nossa "casinha" de faz de conta”. Lá colocávamos um colchão e passávamos horas brincando, até a chuva passar. 

Eu, meus irmãos e primos (que morávamos na mesma rua) tínhamos uma certa fissura por barracas. Nossa primeira “barraquinha" oficial - e de pano - era da turma da Mônica. Nós ganhamos do padre amigo da nossa família e nela, tinha que caber no mínimo 6 crianças (irmãos e primos). Como era bom dormir na barraquinha, comer na barraquinha, jogar na barraquinha! Nossos pais nunca nos levaram para acampar, mas sempre construíam barracas no quintal ou em um terreno baldio na rua de casa. E nos dias de chuva, ficar dentro da barraca era a maior de todas as emoções! Lembro-me do cheiro da lona laranja, dos furos que nela havia, do barulho das nossas risadas e dos pingos de chuva a cair no teto, pingos estes que me acordaram nessa noite chuvosa e me roubaram o sono.


       E cá estou eu com minha família e uma família de amigos, no meio de uma floresta em New Hampshire (norte do Estados Unidos, já quase perto do Canadá). Sim, uma daquelas floresta que a gente vê em filmes e que, de repente, pode aparecer um urso para comer a sua comida. Claro que não será o Zé Colmeia com o Catatau! Mas um urso grande, com unhas afiadas e faminto pelas guloseimas que você comprou no supermercado da cidade. 

Fomos recebidos no acampamento com mensagens de alerta: "Como reagir se “você, por um acaso, encontrar um urso”. Ah sim, muito obrigada! Com certeza esse manual de como me comportar na frente de um urso me ajudará muito. E dizia ainda: “Não tire foto ou faça filmagem”!!!! Quem teria esse sangue frio de encontrar um urso “unhudo" e fazer uma selfie?! Começamos muito bem nossa aventura! A Helena arregalou seus big olhos pretos e ficou em alerta todo tempo: “Mamãe, aqui tem Betty grande” (pra quem não sabe, Betty é o urso de pelúcia da Helena que já virou um membro da família. Ela já visitou muitos lugares e ficou perdida em Nova Iorque. Temos esperança em encontrá-la novamente em algum filme ou museu de história natural).

     Pois é, então me diga: que espírito é esse que te leva para um acampamento, nos arredores de uma enorme floresta, com a sua família, para um final de semana de 3 dias? Foi essa pergunta que me motivou a voltar a escrever nossas histórias aqui no blog. Preciso explicar a mim mesma esse sentimento contraditório que me faz feliz! 

Contraditório porque em um acampamento você não tem descanso em um ofurô, nem pode sentar e comer a melhor comida de um restaurante, você não dorme em uma cama redonda com lençóis de seda. Em um acampamento com a família você - anota aí para não esquecer - dorme em um colchão de ar que murcha no meio da noite e cada vez que um vira pro lado, o outro precisa virar também; você anda uns minutos para chegar até o banheiro mais próximo (ou seja, não pode ter dor de barriga); você come somente aquilo que pode ser feito em uma fogueira; você fica com o pé sujo o tempo todo; você anda curvado dentro da barraca e quando sai dela, continua a andar curvado e não sabe o motivo; você toma banho se for possível e se for realmente preciso; você fica cheirando a fumaça o tempo todo (precisa tomar banho?!).

Só que tem um lado dessa aventura - que deve ser onde mora esse tal espírito - que não tem como explicar completamente em palavras. 


Acampar com os filhos é oferecer para eles um céu estrelado, o cheirinho da chuva que molha e mantém viva a floresta, é mostrar que a natureza é esplendorosa e perfeita, que ela nos acolhe e nos dá a sensação de pertencimento a essa infinita e complexa beleza que é viva, que é vida. Acampar com os filhos é dar essa presente ancestral de conversar, cantar e ouvir histórias ao redor do fogo, aprender como fazer a madeira se transformar em calor para garantir nosso alimento. É deixá-los explorar de pés descalços os arredores da mata, conhecer as árvores que estão de pé, subir naquelas que já caíram e olhar com cuidado para aquelas que estão a crescer. Tudo bem se escapar um xixi (dois, três ou quase todos) porque o banheiro é longe e a brincadeira está muito boa para parar. Ver a Helena (mijada o tempo todo), andando com um enorme galho na mão, com os cabelos ao vento, descalça e chamando o irmão para uma aventura… Ah! Essa cena não tem preço! 



        Acampar é colocar a família em uma "prova de trabalho em equipe" - isso também deve fazer parte do espírito. Todos precisam fazer alguma coisa, dividir tarefas: cuidar do fogo, da comida, da porta da barraca sempre fechada, das brincadeiras, dos mosquitos, etc. Acampar “em famílias” é adotar um grupo de pessoas para lutar pela sobrevivência coletiva! Assim, ficamos ainda mais próximos, cuidamos uns dos outros e dos filhos dos outros como se fossem nossos. Dividimos a comida, as tarefas, cobertores e as histórias de vida! Compartilhamos esse momento de sentimentos contraditórios e nos unimos por esse tal espírito que a gente não consegue explicar ao certo com palavras. A gente sente esse espírito! E a gente só consegue sentir isso se abrir mão do velho conforto do sofá de casa, do chuveiro e do banheiro, da comida no fogão e na geladeira.



        Confesso que estar de volta nessa barraca em uma noite de chuva, me trouxe novamente a deliciosa lembrança da minha infância, quando esse tal espírito me rondava, esse desejo de estar perto da natureza separada apenas por uma lona colorida. Saber que a imensidão de uma floresta acontece ao meu lado (bichos andam, se alimentam e vivem bem perto de mim) e que posso experimentar essa aventura ancestral com respeito e gratidão. 

Que bom que meus filhos podem viver isso com a gente! 

Espero que, em alguma noite de chuva, escutem os pingos a cair no teto de uma barraca de lona e se lembrem também de algo familiar de sua infância. Que sintam o aconchego e a coragem desse tal espírito que nos une ao bem mais precioso que temos: as pessoas e a natureza!