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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Carta para o amigo que não verei mais


Não sei muito bem como começar essa carta, talvez porque eu não saiba o que realmente é uma carta e também nem saiba como escrever. Sim, ainda não sei escrever uma frase se quer porque na escola andam nos ensinando letras e sons de algumas palavras. A nossa professora, você se lembra dela ainda? Então, ela não conseguiu sequer arrumar uma tradução para a palavra saudade! Muito menos me ajudar a colocar em um monte de letras esse negócio esquisito que estou sentindo depois da sua despedida. Acho que você não conhece essa palavra também... na Coréia existe isso, saudade?
No Brasil nós sentimos muita saudades... saudades da família, da comida, da praia... e eu, agora sinto saudades de você. 
É que você foi o primeiro amigo "de verdade" que eu fiz aqui. Digo de verdade, pois você é da minha idade, da minha escola, da minha sala de aula e também do meu quintal. Isso não lhe parece perfeito para um amigo de verdade? Sim, esse era você aqui. 
Sei que a culpa não foi sua. Nem minha. Acho que essa ideia maluca dos nossos pais em sairem pelo mundo procurando um jeito novo e melhor para se viver foi o motivo de tudo isso.
Primeiro eles escolheram viver longe das nossas famílias e nós sentimos a tal saudade. Depois, quando a saudade já ficou mais mansa, que a gente conhece gente nova e legal, eles decidem voltar para onde nós nascemos (ou para outra cidade). E aí a gente sente saudade outra vez, daqueles que deixamos naquele velho lugar.
Você acha bom viver assim? Você acha bom chegar em um lugar sozinho, sem amigos e depois que os encontra, precisa se despedir outra vez?
Não sei se acho bom ou ruim. Agora, aos 5 anos, não sei pensar sobre isso muito bem. Não sei sequer dizer o que sinto aqui dentro de mim quando entrei na nossa sala de aula hoje e você não estava mais lá. Era um aperto dolorido, que deixou minha barriga gelada, minha cabeça confusa... com quem eu iria brincar e sentar junto? 
Sabe Donny, as escolhas que nossos pais fizeram talvez sejam incompreendidas agora, mas depois pode ser que algo bom aconteça para nós. Teremos amigos espalhados pelo mundo! 
Outra coisa meu amigo, nós aproveitamos muito cada minutinho que passamos juntos. Rimos, corremos pelo barranco, nos acidentamos, choramos, pedimos desculpas, nos entendemos sem ao menos saber falar a mesma língua. Porque a amizade é algo que não precisa de muitas palavras! A gente entende com o olhar, com a simples companhia.
Meu quintal vai ficar vazio por algum tempo. E esse tempo vai passar também e vai ajudar a curar esse aperto que eu sinto no meu peito. 
Se alguém na Coréia te perguntar o que significa SAUDADE, diga que é ver a casa do grande amigo vazia, o quintal sem companhia e seu "cub" sem a mochila. Isso é saudade!

Boa sorte amigão!
Nos veremos via Skype, FaceTime, Coréia, EUA ou Brasil.
Somos do mundo e com certeza nos encontraremos por aí!
Lucas Leiria
(Se pudesse usar as palavras hoje!)

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Making off do episódio...

Ontem, na mesa do jantar, Lucas preocupado pergunta:
- Mãe, quantos os dias o Donny vai ficar longe? - e mostra todos os dedos de sua mão, - tudo isso de dias, mãe?!
Eu respondo:
- Ichi filho, vai ser muito mais que isso. Será como a Clara e a Betina, faz tempo que elas foram e não voltaram, né?! Mas deixe o João, seu irmão mais velho e experiente te ajudar com esse assunto. Ele já viveu essa situação algumas vezes. Diga algo para o seu irmão, João.
- Eu acho que eu não passei por isso, mãe - diz o João - Os amigos que eu deixei no Brasil eu sei que posso encontrar outra vez quando a gente voltar. Mas o Lucas, .... , (pausa, longa, doída e já pressentindo o que estava por vir) ... Lucas não vai ver mais o Donny PARA SEMPRE.

Ok! Obrigada João pela sua super ajuda e agora, vamos ver se a Helena terá algo a acrescentar!!!!!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Que espírito é esse?


        Noite fria e chuvosa na mata. Ouço os primeiros pingos de chuva a cair e a fazer aquele barulhinho bom que me remete a um lugar já conhecido na memória, no tempo da minha infância. Não consigo mais pegar no sono porque meus pensamentos buscam a familiaridade desse som contínuo da água batendo firme na lona dessa barraca. Lá fora, só o barulho do movimento das folhas das árvores e dos pingos a encharcar o chão dessa enorme floresta. Mas que lembrança é essa? 

Viro para o lado e vejo meus filhos dormindo um sono de paz, todos envolta de mim e do meu marido que respira fundo e continuamente. A chuva segue seu ritmo, agora mais forte e o barulho da água caindo nem os acorda… mas, eu sigo buscando a lembrança desse som familiar. Bastou olhar para cima e pude reconhecer que esse era o som da barraca que minha mãe montava no quintal e, que nos dias de chuva, era nossa "casinha" de faz de conta”. Lá colocávamos um colchão e passávamos horas brincando, até a chuva passar. 

Eu, meus irmãos e primos (que morávamos na mesma rua) tínhamos uma certa fissura por barracas. Nossa primeira “barraquinha" oficial - e de pano - era da turma da Mônica. Nós ganhamos do padre amigo da nossa família e nela, tinha que caber no mínimo 6 crianças (irmãos e primos). Como era bom dormir na barraquinha, comer na barraquinha, jogar na barraquinha! Nossos pais nunca nos levaram para acampar, mas sempre construíam barracas no quintal ou em um terreno baldio na rua de casa. E nos dias de chuva, ficar dentro da barraca era a maior de todas as emoções! Lembro-me do cheiro da lona laranja, dos furos que nela havia, do barulho das nossas risadas e dos pingos de chuva a cair no teto, pingos estes que me acordaram nessa noite chuvosa e me roubaram o sono.


       E cá estou eu com minha família e uma família de amigos, no meio de uma floresta em New Hampshire (norte do Estados Unidos, já quase perto do Canadá). Sim, uma daquelas floresta que a gente vê em filmes e que, de repente, pode aparecer um urso para comer a sua comida. Claro que não será o Zé Colmeia com o Catatau! Mas um urso grande, com unhas afiadas e faminto pelas guloseimas que você comprou no supermercado da cidade. 

Fomos recebidos no acampamento com mensagens de alerta: "Como reagir se “você, por um acaso, encontrar um urso”. Ah sim, muito obrigada! Com certeza esse manual de como me comportar na frente de um urso me ajudará muito. E dizia ainda: “Não tire foto ou faça filmagem”!!!! Quem teria esse sangue frio de encontrar um urso “unhudo" e fazer uma selfie?! Começamos muito bem nossa aventura! A Helena arregalou seus big olhos pretos e ficou em alerta todo tempo: “Mamãe, aqui tem Betty grande” (pra quem não sabe, Betty é o urso de pelúcia da Helena que já virou um membro da família. Ela já visitou muitos lugares e ficou perdida em Nova Iorque. Temos esperança em encontrá-la novamente em algum filme ou museu de história natural).

     Pois é, então me diga: que espírito é esse que te leva para um acampamento, nos arredores de uma enorme floresta, com a sua família, para um final de semana de 3 dias? Foi essa pergunta que me motivou a voltar a escrever nossas histórias aqui no blog. Preciso explicar a mim mesma esse sentimento contraditório que me faz feliz! 

Contraditório porque em um acampamento você não tem descanso em um ofurô, nem pode sentar e comer a melhor comida de um restaurante, você não dorme em uma cama redonda com lençóis de seda. Em um acampamento com a família você - anota aí para não esquecer - dorme em um colchão de ar que murcha no meio da noite e cada vez que um vira pro lado, o outro precisa virar também; você anda uns minutos para chegar até o banheiro mais próximo (ou seja, não pode ter dor de barriga); você come somente aquilo que pode ser feito em uma fogueira; você fica com o pé sujo o tempo todo; você anda curvado dentro da barraca e quando sai dela, continua a andar curvado e não sabe o motivo; você toma banho se for possível e se for realmente preciso; você fica cheirando a fumaça o tempo todo (precisa tomar banho?!).

Só que tem um lado dessa aventura - que deve ser onde mora esse tal espírito - que não tem como explicar completamente em palavras. 


Acampar com os filhos é oferecer para eles um céu estrelado, o cheirinho da chuva que molha e mantém viva a floresta, é mostrar que a natureza é esplendorosa e perfeita, que ela nos acolhe e nos dá a sensação de pertencimento a essa infinita e complexa beleza que é viva, que é vida. Acampar com os filhos é dar essa presente ancestral de conversar, cantar e ouvir histórias ao redor do fogo, aprender como fazer a madeira se transformar em calor para garantir nosso alimento. É deixá-los explorar de pés descalços os arredores da mata, conhecer as árvores que estão de pé, subir naquelas que já caíram e olhar com cuidado para aquelas que estão a crescer. Tudo bem se escapar um xixi (dois, três ou quase todos) porque o banheiro é longe e a brincadeira está muito boa para parar. Ver a Helena (mijada o tempo todo), andando com um enorme galho na mão, com os cabelos ao vento, descalça e chamando o irmão para uma aventura… Ah! Essa cena não tem preço! 



        Acampar é colocar a família em uma "prova de trabalho em equipe" - isso também deve fazer parte do espírito. Todos precisam fazer alguma coisa, dividir tarefas: cuidar do fogo, da comida, da porta da barraca sempre fechada, das brincadeiras, dos mosquitos, etc. Acampar “em famílias” é adotar um grupo de pessoas para lutar pela sobrevivência coletiva! Assim, ficamos ainda mais próximos, cuidamos uns dos outros e dos filhos dos outros como se fossem nossos. Dividimos a comida, as tarefas, cobertores e as histórias de vida! Compartilhamos esse momento de sentimentos contraditórios e nos unimos por esse tal espírito que a gente não consegue explicar ao certo com palavras. A gente sente esse espírito! E a gente só consegue sentir isso se abrir mão do velho conforto do sofá de casa, do chuveiro e do banheiro, da comida no fogão e na geladeira.



        Confesso que estar de volta nessa barraca em uma noite de chuva, me trouxe novamente a deliciosa lembrança da minha infância, quando esse tal espírito me rondava, esse desejo de estar perto da natureza separada apenas por uma lona colorida. Saber que a imensidão de uma floresta acontece ao meu lado (bichos andam, se alimentam e vivem bem perto de mim) e que posso experimentar essa aventura ancestral com respeito e gratidão. 

Que bom que meus filhos podem viver isso com a gente! 

Espero que, em alguma noite de chuva, escutem os pingos a cair no teto de uma barraca de lona e se lembrem também de algo familiar de sua infância. Que sintam o aconchego e a coragem desse tal espírito que nos une ao bem mais precioso que temos: as pessoas e a natureza!





     

terça-feira, 19 de maio de 2015

Quando decidimos viver longe


Desde que nos conhecemos ele já havia escolhido viver longe. Saiu de casa e ficou distante da sua família mesmo sendo o único filho que aquele casal decidiu ter. Arrumou as malas para trabalhar num lugar que lhe daria melhores condições para ser aquilo que gostaria de ser. Ele não imaginava que, no meio desse novo caminho, encontraria alguém no elevador do seu prédio que mudaria todos seus planos.

Eu nunca havia escolhido viver longe... Consegui fazer uma faculdade que ficava apenas 40 minutos da casa onde nasci e cresci, onde sempre que quisesse podia voltar para sentir o quentinho do abraço dos meus pais.  

Mas desde o dia que encontrei aquela pessoa no elevador do meu prédio, os planos da "minha vidinha" de menina do interior mudaram muito.

Ele sempre soube se despedir e foram tantas as despedidas. Ele sempre carregou tanta coragem na bagagem, vai longe e volta. Encontra, aproveita cada minuto, despede-se e sente saudades. Ele sempre viveu sentindo saudades. E eu? Nem imaginava o que era isso. 

Até que um dia decidimos viver longe da nossa família. Para ele seria aumentar a distância, para mim, seria ficar longe de verdade. Não me lembro qual foi exatamente o dia em que tomamos essa decisão, mas tenho quase certeza de que foi naquele encontro no elevador.

Arrumamos as malas com muita esperança de viver uma vida melhor, de conquistar novos desafios e alcançar nossos objetivos. Tentei tirar um pouco da coragem da bagagem que ele já havia arrumado e coloquei disfarçadamente nas minhas coisas. Distribui um pouco dela na mala das crianças, assim todos estariam fortes para seguir em frente nesta nova fase longe daqueles que sempre estiveram tão perto.

Quando decidimos viver longe assumimos o compromisso de sermos felizes e que cada conquista precisa compensar a falta absurda que sentimos da nossa família. Quando resolvemos ficar distantes, assinamos o contrato de fortalecermos uns aos outros, de unir nossas forças e dessa forma, vamos preenchendo nossa bagagem de mais coragem. 

Eu demorei 32 anos para fazer isso e confesso que sou a mais novata no quesito "lidar com a saudade e com a distância". Ele e as crianças estão melhores que eu, não tenho dúvida! 

E sabe o que acho mais importante nisso tudo? É que viver longe não significa que "sofremos" de falta de amor ou de desapego às nossas famílias. Quando moramos distantes da família nós aprendemos a amar de verdade! A amar sem pedir nada em troca, a dar o devido valor, a reconhecer cada coisinha que eles fizeram (e fazem ainda) por nós. Cada segundo juntos é precioso. Cada abraço ou beijo de boa noite é sentido de todo coração.

Quando decidimos viver longe o tempo passa contado, dia a dia, minuto a minuto. "Quando vamos nos ver outra vez?". Estamos sempre nos preparando para o reencontro e para outra despedida. E disso se faz a vida!

Desejo que meus filhos aprendam que viver longe é estar ainda mais perto de amar de verdade. Pagamos um preço alto por essa distância, por isso temos a obrigação de viver bem e felizes. E que  meus filhos saibam que cada reencontro é único e merece ser vivido com todo coração.


Para meu marido Luiz, 
com quem aprendo a ter coragem
de viver longe!

Para minha família,
por quem morro de 
saudades!


terça-feira, 28 de abril de 2015

E aí você entende a primavera!


Quando passamos grande parte da nossa vida num país como o Brasil, sentimos com certa "leveza" a passagem das estações do ano. A rotina de cada um segue seu fluxo e na maioria das vezes, da mesma forma no verão, no outono, inverno ou primavera. As estações mudam e apenas falamos sobre a chuva, o tempo mais seco, a falta de água em São Paulo, o calor insuportável... muitas vezes passamos pelo outono e mal lembramos exatamente o dia que ele começa.

Durante muitos anos, na minha vida escolar como aluna de uma escola pública de Monte Mor, comemorávamos a chegada da primavera. Pintávamos desenhos mimeografados, com aquele cheirinho de álcool, por horas e horas. Fazíamos flores de papel crepom, cantávamos canções festivas pela estação, mas... o que era aquilo? Por que comemorávamos a primavera? Eu sempre via flores pelo caminho da escola e na minha casa o ano inteiro! Que diacho de festa é essa para a primavera?! Viva a primavera? Não dava para entender! Eu achava que deveria ser "Viva o verão" porque estamos de férias e vamos passear na praia. Mas... primavera?! Aquilo nunca fez sentido para mim.

Nunca... até chegar ESSA primavera!


Depois de três longos-intensos-gelados e "engordativos" meses de inverno, eu, finalmente, entendi o que é de fato a PRIMAVERA! Entendi porque as culturas que vivem em lugares de estações bem definidas comemoram com festas e celebrações a chegada dos dias mais lindos do ano. Entendi o sentido de cada florzinha que brota de um chão que parecia estar sufocado de tanta neve. Compreendi a alegria das canções entoando a vida e o renascimento de todos os seres da natureza.

Somos sobreviventes do inverno! E quando avistamos apontar um broto verde no chão é como se fossemos resgatados para a vida outra vez!


Aquela temperatura positiva é motivo de muita alegria, tiramos as roupas de verão do fundo do armário e arriscamos uma blusa sem manga só pra sentir a sensação deliciosa de liberdade. (Se eu pudesse queimava meu casaco de neve!). Andar de tênis, encher os pneus das bicicletas, buscar o João na escola à pé, abrir a porta do quintal, andar de chinelo em casa, comprar uma churrasqueira, desligar o aquecimento, abrir o vidro do carro, OUVIR O CANTO DOS PASSARINHOS QUE VOLTARAM! Coisas tão pequenas que passavam escondidas por mim, agora valem ouro e dou o imenso valor que elas merecem.




Esse ano eu completei a minha primeira primavera nesses meus 33 anos de vida. Agora eu entendo porque as pessoas dizem quando alguém faz aniversário "Parabéns, mais uma primavera!", porque primavera é renascimento de verdade: da natureza, da alegria e da esperança. A vida se renova! É motivo de sobra para celebrar o novo que ressurge do improvável!


Mas é só depois de um inverno rigoroso que você entende a PRIMAVERA!

Welcome Spring! Pode entrar e invadir a nossa casa de flores, cores, cheiros e sabores!!!




quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Com os olhos na janela

Antes de mudarmos para os EUA, tivemos um longo trabalho de convencimento com nossos filhos, principalmente com o Lucas, nosso filho do meio. O grande ponto que o atraiu para essa longa e importante mudança foi a neve. "Vou morar em um lugar que tem neve, vó!" . Dizia ele sempre muito animado.

Mas chegamos em pleno verão, e assim que aterrissamos em Nova Iorque, o Lucas queria saber onde estava a neve. Outro longo trabalho de convencimento se iniciou, tivemos conversas diárias explicando quando e como cairia a neve. Passei a usar os sinais da natureza para materializar as mudanças das estações e as árvores me ajudaram muito neste trabalho. Percebia que estava dando certo quando o Lucas, muito atento, retomava nossas conversas dizendo: "As folhas estão mudando de cor e logo elas vão cair. Aí vem a neve, né mãe?!". 

Passamos também a usar a neve como parâmetro para as tão esperadas visitas: "Antes da neve ninguém vem, mas quando a neve acabar, o vovô, a vovó, o Arthur e os titios vão chegar!". E todo santo dia essa criança do meio repetia as mesmas afirmações, confirmando para seu euzinho interior que logo logo a saudade vai dar lugar para o encontro e a alegria em rever sua família que ficou no Brasil.

Aconteceu que o aplicativo do clima lançou a previsão de neve para o primeiro domingo de novembro. Alegria geral na nossa casa! Uma enorme expectativa para ver esse fenômeno branquinho e gelado que até então, só fazia parte dos nossos repertórios de filmes e histórias de livros. Eu nunca vi a neve e esperei com muita ansiedade, até mais que as crianças - eu acho! Só que no meio da semana a previsão muda: só chuva! Nada mais de neve! Nos jogaram um balde de água fria!!!! O Halloween desviou um pouco nossa atenção e seguimos animados com os doces recolhidos na sexta-feira de bruxas! Eis que a previsão volta a apontar a neve e já era domingo: "Lucas, a neve vai chegar, meu filho!".

Com os olhos na janela, amanhecemos ansiosos para ver os primeiros flocos a cair. E nada... era chuva e muito frio as únicas coisas que víamos pelo vidro. Várias mensagens começaram a chegar pelo celular: "neve! neve! tá caindo". Mas onde, puxa vida, que a gente não vê porcaria nenhuma? As crianças desanimaram, tiraram os olhos da janela e passaram para a televisão. Eu via alguma coisa branca caindo, mas era chuva e não neve. Não perdi a esperança: "venham ver gente, agora tá caindo!". De janela em janela, eu buscava o melhor ângulo para enxergar: "subam, venham ver na janela aqui de cima, agora é neve gente!". 
Foi então, que lá do céu, algo misterioso e muito piedoso ("vamos dar mais alegria para essa família!") mandou ligar uma máquina de neve aqui em nosso quintal. E ela veio, linda, branquinha, silenciosa, gelada, fantástica e mágica como nos filmes e nas histórias dos livros. Era a neve! 

"Corre pra fora que vai ser rápido", disse a amiga Duda por mensagem pelo celular. Botei os casacos e as botas e saímos de pijama mesmo para o quintal. Sentimos no corpo o milagre da natureza! Que lindo! Que coisa incrível é a neve! Sei que para quem vive esse fenômeno sempre e por muito tempo, nem acha isso tão incrível assim. Sei que vamos ter neve até enjoar e que eu posso escrever aqui, daqui alguns meses, "to cansada de ver neve!". Mas nada disso tira o encanto desse primeiro contato!

O Brasil é lindo, tem um clima agradável e nós temos sol e calor. Mas eles têm a neve, que é mágica (como disse minha amiga Mariana)! 

Com os olhos na janela, vimos o gramado ficar branquinho, o tronco da nossa árvore também ficou; as bicicletas, os carros... e assim ela seguiu caindo e deixando nossa manhã do primeiro domingo de novembro mais feliz.
Caiu e depois parou!

E lá vem o Lucas com suas observações: "Eu fico feliz que tem neve, não pode parar! E se agora a neve acabou, minha vó ta chegando!". Hahahaha! Outra vez, muita conversa para explicar o que mais está por vir.

De sol em sol, de neve em neve, a cada dia que passa descobrimos coisas novas e construímos,  sempre, um jeito novo de ser. 






quinta-feira, 16 de outubro de 2014

100 dias nos Estados Unidos

Quando nasce um bebê, os pediatras nos dão 3 meses para que seu filho se acostume com a nova vida fora da barriga. Quando uma criança começa a frequentar uma nova escola, as professoras nos orientam a ter paciência e a acompanhar de perto os 3 primeiros meses de aula. Ou seja, três meses é o tempo suficiente para haver adaptação, seja ela qual for! 
Parece que foi ontem, mas já estamos aqui há exatamente 100 dias! Posso considerar que somos vitoriosos, pois confesso que temi ter que voltar para o Brasil logo no segundo mês. Vencemos esses 3 meses de adaptação e agora, oficialmente, nos consideramos adaptados. 
Já sei que, os brasileiros que moram aqui e estão lendo, devem balançar a cabeça negando essa minha frase anterior e, com certeza, estão dizendo: "Foram 100 dias de verão e outono! Deixa chegar a neve!". Tudo bem, gente! Prometo que escreverei um próximo post contando sobre os... quantos dias mesmo???? Uma eternidade de frio e neve!!!!


Mas... voltando aos 100 dias aqui, gostaria de escrever algumas coisas que nos conquistaram de cara nos EUA e outras que nos fazem falta e nos enchem de saudades do Brasil.

Poderia fazer uma lista de 100 coisas, aproveitando o ensejo! Mas quem aqui aguentaria ler? Nem eu! Contarei com a colaboração de meus filhos e marido para compor essa lista.




- No top, com certeza, foi a quantidade de árvores espalhadas pelas ruas, pelo condomínio onde moramos, na escola... por tudo! É extraordinário viver em um lugar onde há uma visão verdinha (ou multicolorida, como no outono), com sombras, esquilos, etc.

- Como não falar da organização! Ela está na rua, no trânsito, nos jardins... tudo arrumadinho e lindo. Na escola, tudo funciona por e-mail, sites, cronogramas... No condomínio, você escreve para a manutenção e rapidamente aparece alguém na sua casa para ajudar a consertar alguma coisa.

- O respeito ao consumidor, é impressionante. Compramos umas coisas logo na chegada  e elas não deram certo, ou não ficamos satisfeitos com o produto. Voltamos ao supermercado com tudo, entramos numa pequena fila e, ao chegar no caixa, a pessoa perguntou "Está tudo certo dentro da embalagem?", respondemos que sim. E ela nos devolveu todo o valor em "cash"! Nem nos perguntou o motivo da devolução. Nem tivemos que ligar para o 0800!!!!

- Preço das coisas. Eu que nunca fui de consumir ou ser louca por comprinhas, aqui me transformei! Como as coisas são realmente baratas! De verdade! Principalmente as roupas das crianças; nada mais justo... usa-se menos tecido, por isso, paga-se menos. No Brasil parece ser o contrário: tem roupa de criança mais cara do que de adulto. Aqui tem cupom de desconto  para tudo, você ainda pode pagar mais barato.

- E os produtos de limpeza?! Tudo para você ter menos trabalho com os afazeres de casa. Não se lava banheiro e nem cozinha. Não tem rodo, pano de chão ou tanque de lavar roupas. Tudo se resolve com um papel toalha e um produto em spray. Poxa vida, me perguntei, mas tanto papel você, de alguma forma, aumenta a quantidade de lixo produzido? Ai pensei na quantidade de papel que usamos em sala de aula, com coisas da escola... pelo menos não estou mais fazendo isso! Compenso do outro lado. Mas nem é tanto papel assim... aqui em casa pelo menos é uso consciente!

- A escola pública onde o João estuda é de tirar o chapéu! Toda sexta-feira a professora manda para as famílias um "update" da semana, contanto o que fizeram e os itens do currículo que foram trabalhados. As sala de aulas são amplas, equipadíssimas, fora dos padrões "carteiras viradas para lousa". Os livros que ele pega na biblioteca semanalmente são de primeira qualidade! Impressionante! A comissão de pais funciona e eles se organizam para levantar mais verbas para a escola, mantendo assim a qualidade de tudo, como por exemplo, garantir um Macbook para cada criança nas aulas de informática. O apoio pedagógico aos alunos com dificuldades ou estrangeiros realmente acontece; há grupos de apoio para a língua, matemática, etc. com profissionais especializados.

- Aqui tem umas lojas que vendem apenas bebidas. Elas são super controladas e até temos que mostrar o passaporte para comprar uma garrafinha de cerveja! E é da cerveja que esse item vai falar! Aqui podemos encontrar uma variedade gigantesca de tipos, sabores, nacionalidades de cerveja e por um preço normal. Não é como no Brasil, que pagávamos mais de 15 reais em apenas uma garrafinha de cerveja artesanal. Aqui você paga 10 dólares em um engradado com 6 cervejas. E tem para todos os gostos!

- Fomos muito bem recebidos pelo povo daqui! Sempre prontos a ajudar, a falar devagar para podermos entender, sempre dizem "hello" e nos surpreendem com gentilezas no transporte público ou pelas ruas e estabelecimentos. Mas tem gente também que não dá lugar no trem para uma mãe com um monte de filhos como eu! É uma minoria, mas tem também.

- E por falar em filhos, aqui encontramos espaço para uma família com 3 crianças pequenas. Somos uma família normal! Podemos usar no supermercado um carrinho com três espaços para as crianças,  tem  acesso fácil na rua para andar com carrinho e elevador em todas as estações de metro.

- Segurança! Podemos andar pelas ruas sem medo ou pavor em ser abordado. As casas não têm muros e as entregas feitas podem ficar na porta da sua casa que ninguém leva embora.

- Aqui, encontramos também, famílias brasileiras que nos acolheram com todo carinho do mundo e nos ensinaram tantas coisas sobre a cidade, o frio, as roupas, as comidas... E assim, de encontro em encontro, amenizamos a saudade de estar com quem a gente ama, pois entre as famílias brasileiras compartilhamos o que somos individualmente e como sujeitos de uma mesma cultura.

Mas a gente morre de saudades do Brasil, porque aqui não encontramos...

- o abraço e o carinho dos nossos familiares! Sofremos de saudade aguda dos nossos pais, meus irmãos, sobrinhos, da vó... dos tios, primos! (E de todos os amigos queridos que deixamos no Brasil).
- a carne deliciosa que comemos aí... a picanha, o filé, a costela gaúcha! Dá água na boca só de escrever.
- a variedade de sabonete em barra para tomar banho. Aqui só tem o Dove e é caro pra chuchu.
- a mandioca frita, a sopa de mandioquinha, o mamão papaia, a banana prata, o churrasco, o chimarrão, o charque, o carreteiro, a bisnaguinha, requeijão,  pão francês, o pastel... ficaríamos até amanhã escrevendo as delícias brasileiras que nos fazem tanta falta!
- nosso carro que nos levava para qualquer lugar em dias de chuva, de frio ou de muito calor.
- nossos livros em português que ficaram presos em caixas escuras e tristes.
- um cartão de crédito e as deliciosas parcelas sem juros!


E desse jeito a gente vai seguindo, ultrapassando os 100 primeiros dias e rumo à próxima etapa: encarar o frio! Quantos dias mais virão? A gente ainda não sabe não... mas que sejam todos de superação e muito felizes! Se Deus quiser, serão!




domingo, 3 de agosto de 2014

Hora da mudança: aqui vamos nós!

Amanhece o dia em Nova Iorque... meus olhos se enchem de lágrimas ao ver do alto, aquela imagem linda de sol nascente entrelaçada pelas luzes da grande metrópole. Olho pro lado e vejo minhas três crianças comigo, mais meu marido. Que loucura! O que vai ser da gente aqui nos EUA? Uma mistura de alegria e medo vai tomando conta de mim. Pela caixa de som do avião, posso ouvir o comandante dizer "pouso autorizado". E lá vamos nós!

Mas antes de começar essa história é preciso falar de outra coisa: de sonho. SONHO no sentido de desejo, de querer muito algo que parece quase impossível. Depois, quando você encontra uma pessoa que tem o mesmo sonho que você, ele passa a ser PLANO. Em seguida já vira META e com o passar do tempo, dependendo da sua determinação, a sua meta se transforma em oportunidade. Para os corajosos o sonho, enfim, pode se tornar realidade.

Amanhece o dia em Nova Iorque e o frio na barriga da aterrissagem se mistura com a expectativa e a insegurança: o que vai ser de nós numa vida nova em outro país?!
Deixamos para trás nossa zona de conforto: as ruas conhecidas da nossa velha cidade, os amigos que fizemos com o tempo, a família sempre pronta a ajudar, o conforto da nossa casa, o carro que nos levava para todo e qualquer lugar, o trabalho, velhas conquistas, nossa língua materna e toda a nossa segurança cotidiana.
 
Ao chegar em outro país acionamos um campo desconhecido que vai nos guiando para que possamos nos adaptar às novas formas de viver. Descobrimos outros sentimentos, aflições, novas maneiras de ver o outro e o espaço à nossa volta. Um exercício intenso para nós adultos e também para as crianças!
 
Nosso destino: Boston. Sobre o resto dele não temos muitas notícias! Sabemos apenas que por aqui ficaremos um tempo e aqui viveremos um dia de cada vez. Temos a certeza de que, pelo menos, estamos juntos e que numa família-equipe como a nossa não tem como ficar na mão. A casa está sempre lotada por natureza, há tarefas mil a se fazer, a hora voa e o dia acaba antes mesmo da gente perceber.
 
As crianças descobriram a amizade incondicional porque ainda não há outras crianças com quem brincar; e assim passam o dia esbanjando carinhos, compartilhando saberes, armando brigas homéricas e deixando a mãe doidinha! A mãe? A mãe descobriu que ama ser professora porque quando o sinal bate a turma toda vai pra casa. Aqui não é bem assim: são 24 horas de pura emoção! O sinal bate e todos continuam comigo.
 
Só que eu também descobri em meus filhos coisas novas! Coisas estas que só podem ser desvendadas quando estamos em situações assim. Como só tenho eles para me comunicar durante o dia, acabo me surpreendendo com as conversas, os pensamentos e a forma como observam tudo ao redor. São tantas reflexões... "Mãe, agora você pode colocar a máquina pra falar em inglês e não em espanhol porque você já sabe o que ela pede"; "Mãe, diz o Lucas, preciso mandar uma mensagem"; "Didi" agora fala a Helena quando quer chamar o Lucas. "Mãe, você só fala "thank you" e dá risada... e se a pessoa estiver falando uma coisa ruim?", comenta o João preocupado quando saímos sozinhos pela rua.
 
E assim novos dias vão amanhecendo... quando a gente vê, já passou um mês!
 "Amanhecer é uma lição do universo que nos ensina que é preciso renascer. O novo amanhece!", já dizia a canção de Renato Teixeira.
 


Public Garden