terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Uma vida no frio - Parte I (porque o inverno nem começou!)


Pelas redes sociais posso ver a praia, o céu azul da nossa terra, a cerveja gelada num quiosque à beira mar, piscina, peles bronzeadas. Posso até sentir o cheiro da porção de camarão à milanesa com limão e molho de pimenta, do pastel de queijo minas... vejo de longe esse Brasil caloroso, de temperatura beirando o insuportável, de gente festeira que comemora a chegada do verão, as férias e as viagens de final de ano.

Como anda a vida aqui? Em tons de cinza! É tanta nostalgia que uma caminhada matinal até a escola daria uma centena de poesias e canções de saudades. O frio vem chegando ora de mansinho e branco, ora com aquele vento avassalador, nos enchendo a cara de tapas. Se o dia está lindo e muito ensolarado, se prepare! Vai congelar lá fora!  É como disse a amiga da Renata Leitão (amiga que já deve estar se bronzeando nas praias do nordeste), "Sol aqui em Boston é como luz de geladeira: só ilumina, mas não esquenta". Se chove, fica mais quente (ou melhor, menos frio!) e mais suportável de andar na rua (se é que andar na rua com chuva é algo suportável!).


Uma coisa é ver o frio pela janela da sala: o chão ficando branco, as árvores nuas se despedem das últimas folhas que caem, o céu cinza e a noite que chega às 4 da tarde. Outra coisa é sair pra rua, ou melhor, andar na rua.

Uma coisa é andar na rua sozinho! Você pode colocar sua mão no bolso, esconder o rosto enroscando no casaco, andar mais rápido para esquentar etc. Outra coisa é você andar na rua empurrando um carrinho com duas crianças dentro e uma outra que anda com passos mais lentos ao seu lado. Isso é passar frio de verdade! E pode estar chovendo, ou nevando, ou ventando... (e o que mais pode acontecer nessa terra congelante?!), nós estamos lá, na rua, ida e volta para a escola do João. São 10 minutos de caminhada na ida e mais 10 para voltar. Tempo suficiente para queimar a mão e rosto de frio, tipo uma queimadura de sol do verão do Brasil! Pois é, eu queimei minha mão duas vezes porque, ou eu segurava aquele carrinho com meus filhos, ou botava minha mão no bolso e deixava meus filhos descerem rua abaixo. Preferi segurar as crianças!

E sabe o que é o pior? Você lá, andando, morrendo de frio, empurrando aquele carrinho pesado, sem fôlego, sem sentir sua boca... e você vê crianças correndo felizes, com um casaquinho leve, sem luva e sem gorro! Ninguém aqui reclama da chuva, da neve, do frio! Andam na mais pura alegria. E eu, devo andar com aquela cara de quem está indo pro calvário. Credo!


Meu filho João, acorda todos os dias bem cedinho, troca de roupa, toma seu café e sai de casa com temperaturas negativas... e ele NUNCA reclamou de nada! Nunca disse um "ai que frio"; ele só diz se nós perguntamos. Incrível! Eu só admiro. Se fosse no Brasil, batia 10 graus (positivíssemos) de manhãzinha, as mães dos meus alunos já não mandavam as crianças pra escola. Tinham dó de tirar do quentinho! Aqui ninguém não tem essa moleza, até porque a escola ficaria vazia desde o outono!

O frio é bem lindo nos filmes e nas fotos... na pele, é dureza. O bom mesmo do frio é entrar em casa com tudo quentinho, tomar um café ou um vinho no jantar. O bom do frio é pegar o trem ou o 51 (ônibus que passa aqui perto de casa). É reunir os amigos brasileiros, deixar as crianças de molho na banheira quentinha, pegar um café na Starbucks, ver a neve branquear o quintal, tomar um sorvete com calda quente de chocolate na J.P. Licks e tantas outras coisas.





Uma vida no frio é assim. E olha que ele ainda mal começou!





quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Com os olhos na janela

Antes de mudarmos para os EUA, tivemos um longo trabalho de convencimento com nossos filhos, principalmente com o Lucas, nosso filho do meio. O grande ponto que o atraiu para essa longa e importante mudança foi a neve. "Vou morar em um lugar que tem neve, vó!" . Dizia ele sempre muito animado.

Mas chegamos em pleno verão, e assim que aterrissamos em Nova Iorque, o Lucas queria saber onde estava a neve. Outro longo trabalho de convencimento se iniciou, tivemos conversas diárias explicando quando e como cairia a neve. Passei a usar os sinais da natureza para materializar as mudanças das estações e as árvores me ajudaram muito neste trabalho. Percebia que estava dando certo quando o Lucas, muito atento, retomava nossas conversas dizendo: "As folhas estão mudando de cor e logo elas vão cair. Aí vem a neve, né mãe?!". 

Passamos também a usar a neve como parâmetro para as tão esperadas visitas: "Antes da neve ninguém vem, mas quando a neve acabar, o vovô, a vovó, o Arthur e os titios vão chegar!". E todo santo dia essa criança do meio repetia as mesmas afirmações, confirmando para seu euzinho interior que logo logo a saudade vai dar lugar para o encontro e a alegria em rever sua família que ficou no Brasil.

Aconteceu que o aplicativo do clima lançou a previsão de neve para o primeiro domingo de novembro. Alegria geral na nossa casa! Uma enorme expectativa para ver esse fenômeno branquinho e gelado que até então, só fazia parte dos nossos repertórios de filmes e histórias de livros. Eu nunca vi a neve e esperei com muita ansiedade, até mais que as crianças - eu acho! Só que no meio da semana a previsão muda: só chuva! Nada mais de neve! Nos jogaram um balde de água fria!!!! O Halloween desviou um pouco nossa atenção e seguimos animados com os doces recolhidos na sexta-feira de bruxas! Eis que a previsão volta a apontar a neve e já era domingo: "Lucas, a neve vai chegar, meu filho!".

Com os olhos na janela, amanhecemos ansiosos para ver os primeiros flocos a cair. E nada... era chuva e muito frio as únicas coisas que víamos pelo vidro. Várias mensagens começaram a chegar pelo celular: "neve! neve! tá caindo". Mas onde, puxa vida, que a gente não vê porcaria nenhuma? As crianças desanimaram, tiraram os olhos da janela e passaram para a televisão. Eu via alguma coisa branca caindo, mas era chuva e não neve. Não perdi a esperança: "venham ver gente, agora tá caindo!". De janela em janela, eu buscava o melhor ângulo para enxergar: "subam, venham ver na janela aqui de cima, agora é neve gente!". 
Foi então, que lá do céu, algo misterioso e muito piedoso ("vamos dar mais alegria para essa família!") mandou ligar uma máquina de neve aqui em nosso quintal. E ela veio, linda, branquinha, silenciosa, gelada, fantástica e mágica como nos filmes e nas histórias dos livros. Era a neve! 

"Corre pra fora que vai ser rápido", disse a amiga Duda por mensagem pelo celular. Botei os casacos e as botas e saímos de pijama mesmo para o quintal. Sentimos no corpo o milagre da natureza! Que lindo! Que coisa incrível é a neve! Sei que para quem vive esse fenômeno sempre e por muito tempo, nem acha isso tão incrível assim. Sei que vamos ter neve até enjoar e que eu posso escrever aqui, daqui alguns meses, "to cansada de ver neve!". Mas nada disso tira o encanto desse primeiro contato!

O Brasil é lindo, tem um clima agradável e nós temos sol e calor. Mas eles têm a neve, que é mágica (como disse minha amiga Mariana)! 

Com os olhos na janela, vimos o gramado ficar branquinho, o tronco da nossa árvore também ficou; as bicicletas, os carros... e assim ela seguiu caindo e deixando nossa manhã do primeiro domingo de novembro mais feliz.
Caiu e depois parou!

E lá vem o Lucas com suas observações: "Eu fico feliz que tem neve, não pode parar! E se agora a neve acabou, minha vó ta chegando!". Hahahaha! Outra vez, muita conversa para explicar o que mais está por vir.

De sol em sol, de neve em neve, a cada dia que passa descobrimos coisas novas e construímos,  sempre, um jeito novo de ser. 






quinta-feira, 16 de outubro de 2014

100 dias nos Estados Unidos

Quando nasce um bebê, os pediatras nos dão 3 meses para que seu filho se acostume com a nova vida fora da barriga. Quando uma criança começa a frequentar uma nova escola, as professoras nos orientam a ter paciência e a acompanhar de perto os 3 primeiros meses de aula. Ou seja, três meses é o tempo suficiente para haver adaptação, seja ela qual for! 
Parece que foi ontem, mas já estamos aqui há exatamente 100 dias! Posso considerar que somos vitoriosos, pois confesso que temi ter que voltar para o Brasil logo no segundo mês. Vencemos esses 3 meses de adaptação e agora, oficialmente, nos consideramos adaptados. 
Já sei que, os brasileiros que moram aqui e estão lendo, devem balançar a cabeça negando essa minha frase anterior e, com certeza, estão dizendo: "Foram 100 dias de verão e outono! Deixa chegar a neve!". Tudo bem, gente! Prometo que escreverei um próximo post contando sobre os... quantos dias mesmo???? Uma eternidade de frio e neve!!!!


Mas... voltando aos 100 dias aqui, gostaria de escrever algumas coisas que nos conquistaram de cara nos EUA e outras que nos fazem falta e nos enchem de saudades do Brasil.

Poderia fazer uma lista de 100 coisas, aproveitando o ensejo! Mas quem aqui aguentaria ler? Nem eu! Contarei com a colaboração de meus filhos e marido para compor essa lista.




- No top, com certeza, foi a quantidade de árvores espalhadas pelas ruas, pelo condomínio onde moramos, na escola... por tudo! É extraordinário viver em um lugar onde há uma visão verdinha (ou multicolorida, como no outono), com sombras, esquilos, etc.

- Como não falar da organização! Ela está na rua, no trânsito, nos jardins... tudo arrumadinho e lindo. Na escola, tudo funciona por e-mail, sites, cronogramas... No condomínio, você escreve para a manutenção e rapidamente aparece alguém na sua casa para ajudar a consertar alguma coisa.

- O respeito ao consumidor, é impressionante. Compramos umas coisas logo na chegada  e elas não deram certo, ou não ficamos satisfeitos com o produto. Voltamos ao supermercado com tudo, entramos numa pequena fila e, ao chegar no caixa, a pessoa perguntou "Está tudo certo dentro da embalagem?", respondemos que sim. E ela nos devolveu todo o valor em "cash"! Nem nos perguntou o motivo da devolução. Nem tivemos que ligar para o 0800!!!!

- Preço das coisas. Eu que nunca fui de consumir ou ser louca por comprinhas, aqui me transformei! Como as coisas são realmente baratas! De verdade! Principalmente as roupas das crianças; nada mais justo... usa-se menos tecido, por isso, paga-se menos. No Brasil parece ser o contrário: tem roupa de criança mais cara do que de adulto. Aqui tem cupom de desconto  para tudo, você ainda pode pagar mais barato.

- E os produtos de limpeza?! Tudo para você ter menos trabalho com os afazeres de casa. Não se lava banheiro e nem cozinha. Não tem rodo, pano de chão ou tanque de lavar roupas. Tudo se resolve com um papel toalha e um produto em spray. Poxa vida, me perguntei, mas tanto papel você, de alguma forma, aumenta a quantidade de lixo produzido? Ai pensei na quantidade de papel que usamos em sala de aula, com coisas da escola... pelo menos não estou mais fazendo isso! Compenso do outro lado. Mas nem é tanto papel assim... aqui em casa pelo menos é uso consciente!

- A escola pública onde o João estuda é de tirar o chapéu! Toda sexta-feira a professora manda para as famílias um "update" da semana, contanto o que fizeram e os itens do currículo que foram trabalhados. As sala de aulas são amplas, equipadíssimas, fora dos padrões "carteiras viradas para lousa". Os livros que ele pega na biblioteca semanalmente são de primeira qualidade! Impressionante! A comissão de pais funciona e eles se organizam para levantar mais verbas para a escola, mantendo assim a qualidade de tudo, como por exemplo, garantir um Macbook para cada criança nas aulas de informática. O apoio pedagógico aos alunos com dificuldades ou estrangeiros realmente acontece; há grupos de apoio para a língua, matemática, etc. com profissionais especializados.

- Aqui tem umas lojas que vendem apenas bebidas. Elas são super controladas e até temos que mostrar o passaporte para comprar uma garrafinha de cerveja! E é da cerveja que esse item vai falar! Aqui podemos encontrar uma variedade gigantesca de tipos, sabores, nacionalidades de cerveja e por um preço normal. Não é como no Brasil, que pagávamos mais de 15 reais em apenas uma garrafinha de cerveja artesanal. Aqui você paga 10 dólares em um engradado com 6 cervejas. E tem para todos os gostos!

- Fomos muito bem recebidos pelo povo daqui! Sempre prontos a ajudar, a falar devagar para podermos entender, sempre dizem "hello" e nos surpreendem com gentilezas no transporte público ou pelas ruas e estabelecimentos. Mas tem gente também que não dá lugar no trem para uma mãe com um monte de filhos como eu! É uma minoria, mas tem também.

- E por falar em filhos, aqui encontramos espaço para uma família com 3 crianças pequenas. Somos uma família normal! Podemos usar no supermercado um carrinho com três espaços para as crianças,  tem  acesso fácil na rua para andar com carrinho e elevador em todas as estações de metro.

- Segurança! Podemos andar pelas ruas sem medo ou pavor em ser abordado. As casas não têm muros e as entregas feitas podem ficar na porta da sua casa que ninguém leva embora.

- Aqui, encontramos também, famílias brasileiras que nos acolheram com todo carinho do mundo e nos ensinaram tantas coisas sobre a cidade, o frio, as roupas, as comidas... E assim, de encontro em encontro, amenizamos a saudade de estar com quem a gente ama, pois entre as famílias brasileiras compartilhamos o que somos individualmente e como sujeitos de uma mesma cultura.

Mas a gente morre de saudades do Brasil, porque aqui não encontramos...

- o abraço e o carinho dos nossos familiares! Sofremos de saudade aguda dos nossos pais, meus irmãos, sobrinhos, da vó... dos tios, primos! (E de todos os amigos queridos que deixamos no Brasil).
- a carne deliciosa que comemos aí... a picanha, o filé, a costela gaúcha! Dá água na boca só de escrever.
- a variedade de sabonete em barra para tomar banho. Aqui só tem o Dove e é caro pra chuchu.
- a mandioca frita, a sopa de mandioquinha, o mamão papaia, a banana prata, o churrasco, o chimarrão, o charque, o carreteiro, a bisnaguinha, requeijão,  pão francês, o pastel... ficaríamos até amanhã escrevendo as delícias brasileiras que nos fazem tanta falta!
- nosso carro que nos levava para qualquer lugar em dias de chuva, de frio ou de muito calor.
- nossos livros em português que ficaram presos em caixas escuras e tristes.
- um cartão de crédito e as deliciosas parcelas sem juros!


E desse jeito a gente vai seguindo, ultrapassando os 100 primeiros dias e rumo à próxima etapa: encarar o frio! Quantos dias mais virão? A gente ainda não sabe não... mas que sejam todos de superação e muito felizes! Se Deus quiser, serão!




terça-feira, 7 de outubro de 2014

As árvores, a infância e as estaçōes do ano

Quando éramos crianças na rua Amadeu Ginefra, lá em Monte Mor, no interior de São Paulo, tínhamos o privilégio de brincar protegidos do sol, pois lá havia um corredor de árvores que deixava o nosso espaço como nenhum outro na cidade, no país e no mundo. Pelo menos era isso que pensávamos naquela época! Em média, por cada casa, havia duas árvores plantadas e quase nenhuma briga entre vizinhos por causa de disputa por sombra.
Era embaixo das árvores que inventávamos nossas mais deliciosas brincadeiras, que brigávamos disputando jogos ou brinquedos, que sonhávamos com nosso futuro! Nas árvores amarrávamos balanços e embalávamos diversas cantigas e versos. Pela observação de suas majestosas copas, acompanhávamos a mudança das estaçōes e inventávamos cenários com suas folhas, flores e pequenos frutos que caíam.
Nós tivemos esse privilégio! 
Até que o tempo foi passando na rua e, o que nos protegia, passou a ser "risco de vida"! Diziam que as árvores comprometiam as construçōes das casas e assim, uma a uma, as árvores foram sendo arrancadas do cenário mais mágico da nossa infância.

Nossa casa ainda está lá na mesma rua e apenas uma das árvores sobreviveu à esse "arvorecídio". Ela ficou guardando nossos maiores segredos e se manteve silenciosa observando se alcançamos os nossos sonhos.

(...)

Nossa árvore no verão
Quando meu marido veio antes para os EUA para alugar a nossa casa, ele me mandou uma foto e disse que teríamos uma enorme árvore no quintal que abraçaria a nossa casa e tomaria conta das vistas de todas as janelas! Essa foi a melhor notícia (depois de saber que eu nāo teria um tanque de lavar roupas!). Ao chegar em nossa nova casa beeeem vazia em Boston, nos deparamos com a esplendorosa árvore do quintal e com toda essa paisagem arborizada daqui. É incrível como tem árvores nesse lugar!!!! Estava tudo verdinho e lindo! Tudo isso em volta da nossa casa. 
Podemos chamar de nossa árvore? Ela não respondeu! Acho que isso foi um sim!!!!



Me emociono de pensar que meus filhos estão podendo viver essa magia de observar o passar do tempo e as mudanças de estaçōes olhando para esta - e outras milhares - de árvores! Uma banalidade? Não! Prioridade, eu diria!

E assim nós nos encantamos com cada coisinha que acontece com ela! Agora, com a chegada do outono, estamos hipnotizados pelas belezas da natureza. Cada cantinho é uma pintura, uma obra prima! Aqui eu não ganho flores das crianças, ganho folhas! Vermelhas, laranjas, multicoloridas, ou até do Brasil; essa molecada passa horas caçando a mais bonita!

A natureza é quem dá o show e nós apreciamos de camarote essa belezura!






quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mandala de corpos

Na Escola do Sítio (lugar onde trabalhei e onde este projeto foi realizado em 2013), o ano letivo começa com a escolha e a apresentação do objeto disparador. O professor de cada turma (do 1º ao 5º ano) seleciona um objeto pensando e considerando as possibilidades que o mesmo poderá oferecer para o trabalho com seu grupo de crianças. Esta é, também, uma escolha imbuída de subjetividade, expectativas e objetivos concretos.   Quando a turma conhece o objeto que os acompanhará durante todo o ano, os alunos começam a levantar possíveis estudos (rede de ideias), fazem relações com outros temas, investigam a sua história, etc. 
O objeto disparador é aquele que lança nosso trabalho como flecha no horizonte e saímos correndo atrás, em busca de perguntas, novos caminhos, um jeito diferente de conhecer o mundo, suas coisas e pessoas. 


É assim que tudo começa! 
O estudo da simetria iniciou então com o caleidoscópio, o objeto disparador da turma do 3º ano de 2013, e se bifurcou por “ruas e avenidas” do nosso tempo escolar.
Duas cabeças, de Alex Flemming
Ao observar as imagens produzidas pelo curioso brinquedo, as crianças perceberam que os espelhos faziam essas imagens se multiplicarem igualmente, que havia simetria. Descobriram também que as mandalas eram inspiradas nos caleidoscópios e até viravam estampas para tecidos. Diante de tantas perguntas e descobertas, iniciamos um estudo sobre a simetria das mandalas, no qual pudemos perceber que também há simetria em outras coisas: nas folhas, flores, animais, formas geométricas, obras de arte, etc. Essa observação foi feita em nossas rodas da conversa ou em propostas mais específicas, como por exemplo, quando conhecemos a obra de Alex Flemming intitulada de “Duas cabeças”. Também pudemos explorar a simetria no casco da tartaruga trazida por uma aluna para passar o dia na escola!

Uma das opções, dentro deste trabalho, foi explorar a simetria que há em nosso corpo, aproveitando os desenhos (representações humanas) que as crianças de 8 e 9 anos fazem. Algumas já tentam ser fiéis aos detalhes, garantindo todas as partes do corpo, mas outras ainda utilizam “homens palitos”. 
Iniciamos com uma conversa sobre as partes do corpo e a distribuição harmoniosa de cada uma delas. Traçamos uma linha imaginária que cortava, da cabeça ao final do tronco, e as crianças comentavam: cada braço de um lado, olhos, orelhas, pés também; cinco dedos da mão de um lado e outros cinco do outro, da mesma forma que os dedos do pé. E o que temos unitariamente (como nariz, boca, etc.), ficaria cortado ao meio pela linha que imaginamos.

Em duplas, as crianças se desenharam em tamanho real, na tentativa de buscar um contorno próximo ao exato. Foi difícil conseguir: alguns alunos se mexiam e a forma ficava estranha, ou quem estava fazendo o contorno não riscava próximo ao corpo e, esse fato, dava uma proporção não “real” ao que estava sendo feito. O dono do corpo não ficava satisfeito com suas formas e pedia um novo desenho. Depois de tudo pronto, finalizaram o traço com canetinha grossa e recortaram.


Corpo, simetria e diversidade
O próximo passo seria pintar esse corpo, mas... como chegaríamos a cor da pele de cada um? Para isso usamos tinta guache nas cores azul, vermelho, branco, preto e amarelo. Tivemos uma longa conversa: “que mistura faremos para pintar a nossa cor?”. Percebemos que em nosso grupo há diversas tonalidades e que, chegar ao tom perfeito de cada um, não seria nada fácil. Então, as crianças misturaram as tintas e chegaram aos tons de pele mais rosados e foram conferindo quem tinha aquele tom (pintaram manchas nas mãos). Depois, misturaram outros tons mais voltados para o marrom e acrescentavam branco quando necessário. Dessa forma, cada um foi buscando a sua cor e pintando seu corpo. 
Ouvíamos as crianças levantarem hipóteses: quais crianças teriam a mesma? Por que outras não teriam? E assim, davam as sugestões para que as misturas de tinta se aproximassem mais às cores de cada pele. Um aluno insistia que a sua cor não era nenhuma daquelas misturas, dizia que sua cor era branca. Então, oferecemos o pote de tinta branca para que conferisse se aquela era realmente a sua cor. E ele nos respondeu: “Não sou dessa cor também, sou branco!”. E após conversas e experimentações com a tinta, o aluno chegou à conclusão que as pessoas dizem ser brancas, mas na verdade não são. 
Para algumas crianças, falar sobre a cor da sua pele não é algo tão simples assim. Já para outras, a mistura virou uma gostosa brincadeira, como por exemplo, uma aluna que disse: “Coloca marrom no meu que eu sou escurinha!”; ou esse outro menino: “O meu tom está muito claro, põe mais marrom porque a minha mãe diz que eu estou sempre sujo”. Porém, uma criança da turma, que tem o tom de marrom mais escuro, resolveu não fazer as misturas e ficou esperando sobrar algum copinho com qualquer tom de pele para se pintar. Percebemos que seu corpo no papel havia ficado quase vermelho escuro. Ela não se sentiu satisfeita e estava incomodada com aquela cor, por isso, descartamos aquele trabalho e ela começou tudo outra vez. Mas primeiro ela resolveu fazer todos os detalhe: pintou a sua roupa, sapatos, cabelo, traços do rosto e deixou por último, a cor da pele. Quando já estava tudo pronto, a aluna solicitou a minha ajuda para fazermos juntas a mistura que representasse o tom da sua pele. Nesta etapa do trabalho as crianças se reconheceram como diferentes e semelhantes – etnias e cores.
Os corpos ficaram em um grande varal e aquela imagem incomodou um pouco alguns alunos. Até disseram que nossa sala estava parecendo um açougue! E ali eles secaram e esperaram a próxima etapa do trabalho...

... que foi desenhar o rosto usando o espelho para ajudá-los a compor os detalhes. Era como se o espelho confirmasse aquilo que eles buscavam: qual é a cor do meu cabelo? E o formato dos meus olhos? Meus dentes aparecem no meu sorriso? As crianças também desenharam e pintaram suas roupas, sapatos e outros detalhes que achassem interessantes. E novamente esses corpos descansaram e secaram nos varais.
E agora, o que faríamos com todas essas representações? Oras, uma mandala! A turma já havia feito um trabalho com a professora de Ed. Física (mandalas humanas), porém utilizaram seus próprios corpos. Saímos à procura de um espaço possível para colar essa grande exposição humana e escolhemos um lugar muito movimentado, perto do refeitório.

Chegou o dia de compor a nossa mandala e fizemos uma roda especial para levantar os critérios de organização dos corpos no desenho circular. Aproveitamos o assunto das medidas e preenchemos uma tabela com a altura de cada criança (em metros e centímetros). Depois, organizamos nossos dados da menor para a maior altura. Já no espaço onde seriam expostas as mandalas, os alunos retomaram a conversa da roda e elegeram uma composição simétrica, fazendo equivalências das medidas das alturas, aproximando e combinando as informações.
Tudo organizado! Só faltava encher esses corpos de fita adesiva e colar em nossa parede amarela! Depois de pronto, era só posar para foto e apreciar esse longo, mas muito bonito, trabalho.

Mandalas para Todos
Com destaque, nossas mandalas instigaram os olhos de quem passava perto delas. Pudemos escutar as perguntas das crianças da Educação Infantil, por exemplo: “O que é?”; “Por que estão aí?”; “Tem um cabelo amarelo igual ao meu!”, durante a hora do almoço e as inúmeras visitas rápidas que transitavam pelo refeitório da escola. Ou, simplesmente, era possível ver as pessoas passarem, pararem e apreciarem continuando seus caminhos logo em seguida. As crianças ficaram orgulhosas ao receberem tantos “parabéns” de colegas de outras turmas e dos funcionários.



Créditos da Postagem

* Este trabalho teve a colaboração da professora auxiliar Natalí Faria.

* Escola do Sítio
Endereço: Rua Uirapuru, 820. CEP: 13082-706- Campinas – SP
Tel: (19) 3289-6433



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O primeiro dia de aula



Era para ser apenas o primeiro dia de aula dele. Nem tão simples assim! Era o primeiro dia de aula dele em uma escola americana em que todos falam uma língua que ele começou a conhecer agora. Meu filho tem apenas 7 anos e está voltando de férias para a turma do segundo ano em uma escola nos EUA.

  Era para ser apenas o primeiro dia de aula! Nós nos esforçamos para deixa-lo tranquilo e seguro, para que dessa forma pudesse encarar o desafio de frente. Apenas tentamos.. 
Eu, que sou mãe de 3 filhos, já passei pela situação de deixar meu bebê na escola várias vezes. Nunca dói como na primeira vez, que só dói mais porque é uma situação desconhecida (como o primeiro parto e tantas outras primeiras vezes..). Mas juro, que o que eu senti hoje foi algo muito parecido quando deixei o João pela primeira vez na creche.
Ele era um bebê fofinho com os olhos puxadinhos. Sempre que chegava na creche eu o confundia com uma bebezinha oriental! Era o João, que chorou uma semana inteira na adaptação e eu só fui saber disso no final do ano quando recebi um cd com fotos dos seus momentos na creche com os amigos. Eu também chorei quando virei as costas e deixei meu filho no colo de uma pessoa desconhecida que ele nunca havia visto na vida (nem eu!), mas vida de mulher que trabalha tem essas coisas e eu escolhi essa vida pra mim.
Ele já está com 7 anos e caminha com sua mochila nas costas rumo à experiência mais louca da sua vida, experiência esta escolhida pelos seus pais: estudar numa escola onde ninguém fala português e ele mal consegue entender o que os outros falam. Mas o João entrou de cabeça erguida, olhos atentos, sorriso amarelo e mil caraminholas na cabeça! Como eu queria ler seus pensamentos nessa hora!
Eu tentei armar uma barreira nos olhos para conter as lágrimas, para mostrar força e coragem, só que por dentro havia uma mistura de sentimentos: a felicidade ao ver aquela escola de filmes que eu sempre sonhei na minha infância, toda organizada e incrível; uma escola pública! Mas eu também senti medo que ele ficasse sozinho, pois quando não compartilhamos a mesma língua, nos sentimos excluídos (com a comunidade surda, deve ser assim!). 
Entramos na sala, a professora vem até nós e quando eu poderia usar a única frase que eu sei em inglês (nice to meet you!), eu estava tão emocionada que não saiu nada, só um monte de lágrimas esbarradas no muro que eu construí. Ele colocou sua mochila no cabide e organizou seu material na carteira. Sentado, com aquele sorriso mais lindo no rosto, João se despediu da gente. Será que eu não poderia ficar mais um pouco? Tem cadeira sobrando? E se ele precisar ir no banheiro e não conseguir falar? E se alguém fizer alguma maldade, ele não vai saber contar!? Ainda bem que eu não falo inglês e essas perguntas bestas ficaram dentro dessa minha cabeça de mãe!
Difícil foi fazer o Lucas e a Helena entenderem que o irmão fica e eles vão.. Ela saiu pela casa várias vezes procurando o João e o Lucas ficou de olho no relógio aguardando a hora de sair de casa para buscá-lo. E eu, fiquei vazia por dentro, imaginando meu pequeno grande filho, sentado naquela mesinha sem entender bulhufas! 
Ainda bem que as horas passaram voando e logo estávamos prontos, junto com uma multidão de famílias que aguardavam ansiosos seus filhos retornarem.
Era só pra ser o primeiro dia de aula. E faltava apenas 5 minutos para a saída do João e foi ali que o tempo parou. E se o menino não saísse? Como eu faria pra encontrá-lo? Como eu perguntaria para as pessoas? Que droga não falar essa língua desse povo! E que monte de pensamento besta! Era óbvio que ele sairia feliz, com aquele sorriso lindo na cara, correndo e falando MÃEEEEE!
As portas se abriram no horário exato, mas só que duas portas se abriram. Puxa, ele pode sair ou por uma ou pela outra. Fiquei num lugar estratégico, onde eu podia ver a saída das duas portas. Muita criança! Muitos adultos! Muitos irmãos pequenos! Toda essa gente misturada esperando a saída da escola. Olho uma porta e nada! Olho na outra porta, e nada do João. Tudo bem, vamos ficar calmos, não para de sair criança desse lugar e meu filho entrou, vai ter que sair. 
Vejo que aquela multidão vai diminuindo, as famílias retornam felizes para suas casas e.. MEU DEUS, ONDE ESTÁ O JOÃO! Meu corpo ficou gelado, senti um desespero tomar conta dos meus pensamentos e pensei tudo que há de pior no mundo. Mandei uma mensagem para meu marido: O JOAO NAO SAIU! NAO ACHO O JOAO! Noto que algumas crianças estavam com professoras que seguravam um papel, olho em volta e não havia mais nenhuma família naquela porta de saída. Peguei o carrinho e as crianças e fui em direção às salas de aulas que nem uma leoa furiosa e, se precisasse eu falaria inglês pra achar meu filho!
Eis que ele aponta na porta, de mãos dadas com a professora e o rosto branco de nervoso: “Mãe, você precisa me pegar lá dentro!”, como assim???? E a professora me explica com um inglês perfeito de se entender, que ela havia dito ao meu marido que a saída da turma do João é “indoor” e não “outdoor”. Poxa vida marido, você que fala inglês não entendeu essa informação essencial para que esse fosse apenas.. O PRIMEIRO DIA DE AULA! Com certeza a emoção não toma conta só das mães nessa hora, com certeza ele estava tão aflito quanto eu que nem entendeu direito como seria a saída da turma.
Depois do susto, de abraçar forte meu filho tão amado e corajoso, consegui ouvir as novidades que ele tinha pra me contar. E na aula? Ah, foi tudo muito bem!!!!



domingo, 31 de agosto de 2014

Hora de se vestir sozinho

Todos os dias você realiza a simples e incosciente tarefa de se trocar, certo? Já pensou como foi que aprendeu isso? Ninguém nasce sabendo essas coisas! Aprendemos a realizar e depois passamos a fazer sem pensar. Não é incrível? E é assim que acontece quando aprendemos a ler e escrever, a comer comida, a beber no copo, a falar, andar de bicicleta, dirigir... e tantas outras coisas. Algumas sāo possíveis ter até alguma lembrança, ainda mais se foi algo difícil ou traumático. Outras se apagam da memória mas se mantém numa memória corporal, ou seja, o corpo faz sem pensar.

Quantas coisas estāo envolvidas no ato de se trocar? Posso listar algumas: escolher a roupa pensando na temperatura e no clima do dia, se irá ficar casa ou se sairá para a rua, tirar o pijama, colocar a cabeça em um dos buracos da camiseta, mas antes você precisa saber em qual deles deve colocar... são muitos buracos; olhar onde fica a parte da frente ou a que precisa ficar atrás; levantar uma perna pra enfiar em um dos buracos da bermuda e colocar a outra perna no buraco que ficou vazio... tem mais coisas e vou deixar para você prestar atenção quando for se trocar!

São muitas habilidades envolvidas! E para uma criança que nunca se vestiu na vida, fica ainda mais complicado. Não estou falando isso porque hoje acordei fazendo uma reflexão sobre o ato de se vestir, mas sim porque meu filho do meio está muito empenhado neste mais novo projeto em sua vidinha de 3 anos. Costumo não ficar definindo idade pra se começar a ensinar coisas para as crianças, primeiro porque cada um tem um tempo, um jeito de ser e de encarar o mundo. Acho péssimo quando especialistas definem que - por exemplo - "aos dois anos completos as crianças devem sair da fralda"... aí um monte de mães desesperadas acabam antecipando um evento porque foi dito que tem uma idade certa pra fazer as coisas. Não sou assim e aprendi isso (além da sala de aula) em casa com meus três filhos. 

Acho que não me lembro ao certo quando o meu filho mais velho, João, começou a se trocar sozinho... provavelmente tenha sido aos 4 anos de idade, quando o Lucas nasceu e eu precisei que ele passasse a tomar conta desse trabalho. Mais que uma decisão, foi uma necessidade daquele momento. E eu estava tão ocupada amamentando meu segundo filho que chorava absurdamente, que nem me recordo como foi esse processo do João Vitor de vestir-se sozinho .

Agora, que sou uma pessoa que fica em casa com os filhos e troquei minha profissão para profissão mãe, posso acompanhar de perto como o Lucas está aprendendo essa mais nova tarefa da vida. Claro que se eu estivesse no Brasil, trabalhando, tendo que acordar antes das 6 da manhã, com café pra fazer, mochilas pra arrumar etc, não estaria escrevendo essa história agora. Com essa mudança estou tendo oportunidade de escrever outras histórias... nem melhores, nem piores... apenas, outras!


Então, vamos trocar do roupa! E com toda a paciência matinal, eu acompanho as escolhas do Lucas e supervisiono se está colocando certo ou não. Isso quando ele me convida! Já aconteceu dele ficar com a cueca virada e torcida ou com a camiseta no avesso. Tem horas que ele não aceita minha ajuda e eu também não brigo. O mais velho, no começo, tentou ajudá-lo e muitas vezes levou tapas e empurrōes do irmão teimoso. Tudo isso faz parte do processo! Tem horas que o Lucas fica nervoso, desanima e pensa em desistir: "É muito difícil, mãe!", diz ele choramingando. Outras vezes, observa atento os buracos da camiseta e coloca determinado a cabeça no lugar certo. Ele já caiu algumas vezes porque colocou as duas pernas num buraco só da bermuda! Saci pererê!!!


Algumas perguntas comuns: "Ta frio, mãe?", antes de escolher a roupa. "Tá certo, mãe?", quando coloca a cabeça no buraco do braço, "Minha cueca é quarenta dez, mãe", ao observar que o que diferencia suas cuecas do irmão são os números. Olha só, quanta coisa uma criança aprende ao realizar o simples e rotineiro ato de se trocar! Eu fico encantada! Sem contar a irmã caçula que, ao observar tanta autonomia e prazer no irmão, quer fazer igual.

Mas vale lembrar sempre: ter tempo para ensinar seu filho a se trocar faz com que as coisas sejam diferentes. Não posso deixar de frisar esse ponto! E reconheço a dificuldade de mães e pais,  que vivem a loucura do dia a dia, em ajudar seus filhos nessa tarefa. É muito mais simples e rápido fazer por eles! 

Tenho a vantagem de ter três filhos e de reaprender a ser mãe a cada etapa da vida deles: o que não me recordo de ter feito direito com o mais velho, posso refazer melhor com o do meio e assim sucessivamente. Boa, né?! Essa é para animar as mães de um filho só!

Algumas coisas que escolhi fazer para ajudá-lo nesta tarefa:

- Deixo as roupas num lugar de fácil acesso. Claro que essa decisão requer um ato de paciência porque sempre desarrumam tudo. Mas vale a pena!
- Incentivo a escolher suas roupas e dou uns conselhos sobre combinação, adequação ao local e à temperatura etc.;
- Elogio cada conquista;
- Pergunto se precisa da minha ajuda;
- Às vezes o deixo com a roupa torta (quando vamos ficar em casa!);
- Respeito sua decisão de fazer sozinho (quando não vamos perder o 51);
- Mostro a numeração das suas roupas;
- e outras coisas que eu acabo inventando na hora!


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Profissão Mãe

"Toca o despertador bem cedinho antes mesmo do sol aparecer e a maratona começa: se arrumar, preparar o café da manhã, acordar as crianças, separar as roupas, alimentar, fazer higiene, arrumar as mochilas e ir rumo à escola. Ufa, cada um na sua escola com a sua respectiva professora por pelo menos 4 horas no dia." 
Era assim a nossa rotina no Brasil porque eu trabalhava!
Tive o privilégio de ficar meio período com meus filhos e assim, dividi com a escola, o dia a dia das crianças. Mas aqui, tudo é bem diferente!
O silêncio da casa nos faz acordar mais tarde e o sol já brilha intensamente na janela do quarto. Não tem despertador e nem aqueles ringtones que compunham a nossa antiga trilha sonora matinal. Sem pressa e tranquilidade, arrumo todas as infinitas três canecas de leite com achocolatado e os pães na chapa com manteiga. O cheiro é tão gostoso que acaba convidando alguns esquilos a espiar pela janela nossa refeição. Assim começa nosso dia!
Pra você pode parecer gostoso, um sonho de viver… mas todos os dias, esse mesmo trabalho exclusivamente materno e doméstico, não tem seus doces encantos. Queria colocar aqui todos os lados que contém essa moeda!
  Algumas mães, numa fase inicial da maternidade, acabam escolhendo abrir mão do trabalho para poder cuidar de seus pequenos filhos. Essa ideia nunca passou pela minha cabeça! Só agora, com essa história de mudança de país, essa ideia não era bem uma escolha, mas sim, uma única condição.
Acho que um dos fatores que nunca me fez pensar nessa possibilidade de ser mãe profissionalmente, é o meu problema genético de ser bitolada com os serviços domésticos! Minha mãe é assim, minha vó é assim e, certamente, minha bisavó e tataravó também eram. Somos escravas da casa! Somos enlouquecidas por deixar tudo arrumado e limpo. Criamos planos de limpeza, estratégias para organização, rotina, horários… uma doideira sem fim!
E uma mãe com três crianças pequenas não tem uma vida muito saudável querendo sua casa limpa e organizada, concorda?


Mas as promessas americanas eram muito promissoras: cozinha com lavadora de louças, máquina de lavar e secar roupa, casa com poucos móveis, sem ferro de passar roupa… Pois é, seria mesmo um sonho morar numa casa onde não há área de serviço! Como assim? E o tanque? E se numa hora tranquila eu quisesse dar um esfregadinha numas roupas? Não! Eu não tenho tanque em casa, consequentemente, não esfrego nada também!!! Mesmo se eu quisesse dar uma lavada nos panos de chão seria um pouco complicado… aqui eu nem consegui encontrar um rodo como os nossos. É limpeza a seco! Nada de água escorrendo, esfregando, repassando, deixar de molho… Não! Aqui tem: espuma na ponta da vassoura, produto que você passa e já está limpo, dentre outras facilidades domésticas.
Tudo para eu ficar tranquila, poder passar mais tempo com as crianças… mas como eu disse anteriormente, tenho um problema genético… Acabei arrumando manias só pra ficar estressada com as coisas da casa, como por exemplo: ter que sair correndo quando a máquina de secar roupa termina o ciclo, porque se a roupa esfria ela fica amassada e precisa passar com ferro. Já perdi o 51 (ônibus que faz o transporte perto de casa) por causa do ciclo da máquina… Pode? 
O trabalho em casa com as crianças é cruel, pensa comigo: você faz todos os dias a mesma coisas e várias vezes. Eu lavo a mesma frigideira umas quatro vezes por dia! E a gente passa tanto tempo juntos que já nos conhecemos pelo avesso do avesso. Posso saber só de olhar para eles o que querem, o que estão sentindo e até pensando! No começo foi um pouco complicado entender como seria essa nova vida e teve muito choro, manhas, escândalos, broncas, desespero… O tempo foi passando pra gente e nos ensinando como podíamos viver em harmonia e agora, até o chão parece ficar menos sujo!

Uma rotina em casa com os filhos e com os serviços domésticos não é nada fácil. E quando me pego pensando que poderia ser diferente, trabalhando e passando um tempo maior longe das crianças, me arrependo no minuto seguinte, porque também cresço como pessoa acompanhando de perto o desenvolvimento dessas criaturas que eu pus no mundo. Eles me ajudam a ter mais clareza dessa minha escolha de ser mãe e me mostram o que devo fazer para acertar mais. Estar junto “full time” com os filhos faz com que nos deparemos com nossos maiores defeitos e nossas mais belas virtudes. E você, teria coragem de encarar esse desafio?



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O transporte público em: "MÃE, OLHA O 51!"

Quando decidimos mudar de país, resolvemos também mudar de vida, o que implicava vender nosso carro e usar o transporte público de Boston. Nossas referências eram muito boas em relação ao meio de transporte daqui e estávamos tranquilos com nossa decisão. Tranquilos antes de chegar...
 
... porque quando pegamos o táxi, que nos trouxe do hotel até nossa casa, fui sentindo uma simples angústia que silenciava a minha certeza sobre a vida locomotiva em minha nova cidade. Andávamos, passávamos por ruas, árvores, casas, casas, casas... Meus Deus! Só casas? Só árvores? Onde é que eu vou com essas três crianças? Um supermercado? Um centrinho de compras? NADA! Pronto: o sonho da mudança ia por água abaixo e eu nem havia saído do táxi.
 
Nossa casa fica num bairro residencial , ou melhor, super residencial que não tem mais nada, só residências! Eu tinha a sensação que a cidade estava longe, perdida em algum canto por aí e eu havia ficado apenas naquele enorme pedaço repleto de casas, que por sinal são maravilhosas! Coisa de filme mesmo. Mas, como eu mesma disse, era uma sensação de quem estava chegando num lugar novo e que não tinha noção alguma do espaço.
 
Ficamos sabendo que havia um ônibus que ligava a região da nossa casa com o mundo! Ufa! Esse ônibus tem o número 51 (uma ótima ideia no Brasil!). Pronto, tudo resolvido: um ônibus que nos levará para onde quisermos: supermercado, centro da cidade, passeios, vida fora de casa! Mas nem tanto: o dito cujo do 51 tem hora marcada pra passar, demora de 20 minutos a uma hora nos finais de semana e... NÃO FUNCIONA DE DOMINGO! Como assim? Estamos ilhados, dizia meu marido! "Já me dá falta de ar só de saber que não temos como sair de casa aos domingos!".
Só que esse é apenas o começo da nossa história com o transporte... Depois veio a luta pra saber ao certo os horários, o nome do percurso, se é inbound ou outbound etc. E por algumas vezes o vimos passar pelos nossos olhos e... "Mãe, olha lá o 51", dizia o Lucas. Perdemos muitas vezes, esperamos no sol por quase uma hora... e o 51 foi virando um pesadelo na nossa nova vida. O Lucas, que não sabia contar até 5, agora já conhece o 51. A frase mais ouvida aqui em casa é "Corre, ou a gente perde o 51!".
Aos poucos fomos descobrindo os horários e outras opções de linhas para poder sair pra comprar as coisas da casa, que ainda estava pelada. Agora pensa: uma família com 3 crianças pequenas, um carrinho, uma porção absurda de coisas numa sacola e um ônibus? Ou melhor, tudo isso e um ônibus perdido no outro lado da rua. A família correndo com crianças, sacolas, carrinhos e o 51 lá, longe, indo embora pra não mais voltar. Isso mesmo! Era o último ônibus do dia e estávamos longe de casa, às dez horas da noite e eu com cistite. Nessa coisa toda, meu filho mais velho, compreendendo a situação de não poder mais voltar pra casa, entra em desespero e começa a chorar no meio da rua, entre sacolas e embrulhos: "Eu quero o 51! EU QUEROOO O 51!". Todos nós queríamos aquele ônibus maldito... Não era preciso entrar em pânico: existe táxi! Infelizmente as coisas não eram tão simples assim: uma dezena de táxis passavam por nós e não paravam, provavelmente porque não tiveram coragem de colocar tanta gente e tanta sacola nos seus carros. Era a gota d'água: ou eu ia embora pra fazer xixi ou faria na rua. Decidimos ir num restaurante indiano pra usar o banheiro e pedimos ajuda. Lá eles ligaram para um taxi e deram o restaurante como referência; as crianças estavam exaustas, o João chorava pelo 51, as compras, o carrinho... e nada de táxi. Mais meia hora de espera e aparece um carro dizendo que veio nos pegar. Um carro? Sem a placa de táxi? Um casal? Não sabia onde ficava o nossa casa? Meu Deus! Eu quero ir embora! Eles nos levaram mesmo assim e eu já estava em pânico com aquele casal que andava por estradas desconhecidas sem saber para onde estavam indo. De repente, um posto de gasolina conhecido. Ufa! Era a nossa casa!!!! Chegamos!

Andar de transporte público é uma lição de cidadania, dentre outras lições. A gente aprende a dar lugar, a dividir o espaço com o outro, a ser gentil, a conversar com estranhos (ou pelo menos a sorrir para eles). As crianças observam, ficam em silêncio, correspondem aos acenos e gentilezas, mesmo não entendo muito bem a língua. Observam o mapa, decoram os nomes das estações do metrô, as cores das linhas e as conexões que precisamos fazer. Estamos nos apropriando da nossa nova cidade estabelecendo uma relação afetiva com o transporte público! O trem até virou brincadeira de faz de conta!
 

E como pra tudo no mundo há um aplicativo, descobrimos que podemos acompanhar o percurso do 51 e, agora, ninguém mais fica na mão ou chora de desespero. Sabemos exatamente o momento que ele vai passar.

Com o tempo, aprendemos a nos localizar nos arredores da nossa casa: vamos à farmácia a pé, restaurantes, supermercado, café, sorveteria. Ou seja, aquela primeira sensação de "tudo longe" já não é mais a mesma. Aquela imensidão desconhecida e temida passou a ser algo mais familiar e próximo. O tempo faz com que as coisas mudem até de tamanho!!!


domingo, 3 de agosto de 2014

Hora da mudança: aqui vamos nós!

Amanhece o dia em Nova Iorque... meus olhos se enchem de lágrimas ao ver do alto, aquela imagem linda de sol nascente entrelaçada pelas luzes da grande metrópole. Olho pro lado e vejo minhas três crianças comigo, mais meu marido. Que loucura! O que vai ser da gente aqui nos EUA? Uma mistura de alegria e medo vai tomando conta de mim. Pela caixa de som do avião, posso ouvir o comandante dizer "pouso autorizado". E lá vamos nós!

Mas antes de começar essa história é preciso falar de outra coisa: de sonho. SONHO no sentido de desejo, de querer muito algo que parece quase impossível. Depois, quando você encontra uma pessoa que tem o mesmo sonho que você, ele passa a ser PLANO. Em seguida já vira META e com o passar do tempo, dependendo da sua determinação, a sua meta se transforma em oportunidade. Para os corajosos o sonho, enfim, pode se tornar realidade.

Amanhece o dia em Nova Iorque e o frio na barriga da aterrissagem se mistura com a expectativa e a insegurança: o que vai ser de nós numa vida nova em outro país?!
Deixamos para trás nossa zona de conforto: as ruas conhecidas da nossa velha cidade, os amigos que fizemos com o tempo, a família sempre pronta a ajudar, o conforto da nossa casa, o carro que nos levava para todo e qualquer lugar, o trabalho, velhas conquistas, nossa língua materna e toda a nossa segurança cotidiana.
 
Ao chegar em outro país acionamos um campo desconhecido que vai nos guiando para que possamos nos adaptar às novas formas de viver. Descobrimos outros sentimentos, aflições, novas maneiras de ver o outro e o espaço à nossa volta. Um exercício intenso para nós adultos e também para as crianças!
 
Nosso destino: Boston. Sobre o resto dele não temos muitas notícias! Sabemos apenas que por aqui ficaremos um tempo e aqui viveremos um dia de cada vez. Temos a certeza de que, pelo menos, estamos juntos e que numa família-equipe como a nossa não tem como ficar na mão. A casa está sempre lotada por natureza, há tarefas mil a se fazer, a hora voa e o dia acaba antes mesmo da gente perceber.
 
As crianças descobriram a amizade incondicional porque ainda não há outras crianças com quem brincar; e assim passam o dia esbanjando carinhos, compartilhando saberes, armando brigas homéricas e deixando a mãe doidinha! A mãe? A mãe descobriu que ama ser professora porque quando o sinal bate a turma toda vai pra casa. Aqui não é bem assim: são 24 horas de pura emoção! O sinal bate e todos continuam comigo.
 
Só que eu também descobri em meus filhos coisas novas! Coisas estas que só podem ser desvendadas quando estamos em situações assim. Como só tenho eles para me comunicar durante o dia, acabo me surpreendendo com as conversas, os pensamentos e a forma como observam tudo ao redor. São tantas reflexões... "Mãe, agora você pode colocar a máquina pra falar em inglês e não em espanhol porque você já sabe o que ela pede"; "Mãe, diz o Lucas, preciso mandar uma mensagem"; "Didi" agora fala a Helena quando quer chamar o Lucas. "Mãe, você só fala "thank you" e dá risada... e se a pessoa estiver falando uma coisa ruim?", comenta o João preocupado quando saímos sozinhos pela rua.
 
E assim novos dias vão amanhecendo... quando a gente vê, já passou um mês!
 "Amanhecer é uma lição do universo que nos ensina que é preciso renascer. O novo amanhece!", já dizia a canção de Renato Teixeira.
 


Public Garden

terça-feira, 22 de abril de 2014

O primeiro EU TE AMO

"O primeiro eu te amo" a gente nunca esquece, ainda mais quando é dito pelo seu filho do meio que está aprendendo a falar e a utilizar novas expressões para se comunicar. Foi assim que o Lucas declarou o seu primeiro amor...
Não, não foi para mim e nem para o pai e nem para os irmãos.
A história foi assim:
Se preparando para dormir, sem jantar, ele começa a pedir a mamadeira. "Pode mãe? Pode pai? Meu pai disse que sim!!!"
E daí vem vitorioso segurando a mamadeira e para na beira da cama quando eu digo bem séria:
"Filho, vamos ter que dar um jeito nessa mamadeira em breve." Segurando-a na mão, ele me olha com atenção.
"Você já vai fazer 3 anos, está ficando grande..."
Lucas me observa com um ar preocupado.
"É! Acho que ela fará uma viagem para o infinito e além logo logo".
Ele coloca a dita cuja no criado mudo. Olha pra mim e olha para a mamadeira e diz de forma dramática:
"Mas, mas, mas, mas eu AMO ela..."
Ãh? O que? Não ouvi muito bem? Como é que é?
E ele repetiu sem gaguejar: MAS EU AMO ELA, MÃE!
Não foi desse vez outra vez... O Lucas nunca disse que nos ama! No máximo diz que adora queijo, que gosta de potó... mas amar? Foi a primeira vez!
O primeiro "eu te amo" a gente nunca esquece, nem que seja para o MAMACAU - traduzindo "mama de nescau" do Lucas.

quinta-feira, 6 de março de 2014

É preciso saber falar o nome

Aproveitamos a quarta-feira cinzenta para resolver várias coisas e uma delas foi: ir ao supermercado para abastecer a casa. Nós somos o tipo de família que passear é ir fazer compras, ou seja, vamos todos juntos: pai, mãe e os três filhos. Esse evento já é meio que "normal" para a gente! Cada um tem a sua função, se divide, segura um filho, dá a mão para o outro e... fazemos as compras.
O evento de ontem foi apenas mais um em nossas vidas... ou, pelo menos, deveria ter sido.
Eu estava com o carrinho de compras lotado, fazendo aquela força danada para empurrar aquela coisa que anda mais para o lado do que para frente. O Luiz, meu marido, vinha trazendo o carrinho com a Helena, o João estava grudado ao pai e o Lucas... O Lucas? Ele estava primeiro comigo, depois pediu para ir com o pai em outra seção. Então, ele voltou para perto de mim, saiu para junto do pai e depois... e depois?!
Depois, enquanto eu estava apressada pegando os laticínios, olhei momentaneamente para a frente e avisto láááááá no final do corredor, uma senhora com um vestido azul Royal de mãos dadas com uma criança de blusa listrada. Lucas? Sim, era o meu filho do meio andando agarrado na mão de uma pessoa que nunca vi na minha vida! Continuei olhando e não vi Luiz, nem João, nem Helena e nem ninguém da nossa família.
Lucaaaaaaas!!!! Eu gritei e corri desesperada. A mulher parou, me olhou desconfiada e disse: "Lucas? Como assim? Ele falou que se chama FIRMINO e não Lucas".
Ah, espera aí - pensei- me devolve a criatura pequena agora! Só pensei e expliquei para a senhora que ele NUNCA fala o nome, e que no mínimo havia dito "MIMINO", ou seja, eu me chamo menino.
Sabe o que foi pior: o Lucas, em momento algum, largou da mãe dela, ou disse "mamãe" desesperadamente. Ele me olhava, sério, segurando a mão daquela senhora toda vestida de azul. Claro, a mulher ficou super desconfiada... e disse ainda: "Você teve muita sorte, pois fui eu que o achou! Imagine só se fosse uma outra pessoa maldosa e o levasse embora?" Tudo bem, eu merecia ouvir aquela bronca - que depois eu repassei para o marido!
Sabe, eu sempre achei meio estranha e absurda aquela ideia de levar crianças em "coleiras", mas juro, depois desse fato acho tudo muito normal e eficiente!
Por isso, sempre oriente seu filho a dizer o nome corretamente. Eu faço isso, mas o Lucas não diz nunca o seu nome verdadeiro. Imagine a cena: o Lucas, no balcão de informação, sendo anunciado como FIRMINO?! Eu jamais encontraria meu filho outra vez.

 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Você vai levar essa bebê para o frio??? (Parte II)

Se levar uma criança que completaria 1 ano para a Europa, no inverno, era um ato de extrema loucura, me diga: como fazem as mães londrinas com seus bebês? Levam-os para outros países na estação fria? Deixam de sair de casa para ficar trancadas com seus filhos, esperando o frio passar e a estação mudar? De fato, NÃO!
 
O que mais vi em Londres foram mães e bebês passeando em seus carrinhos, lotando pontos turísticos, brincando nos parques, comendo nos restaurantes, tomando aquela chuva fininha que caia durante o dia (e a noite também). Era animador! Eu espiava dentro de todos os carrinhos que passavam por nós e tinha de tudo: mini-bebês enterrados em cobertores, bebês-ursos protegidos com toucas que nem dava para ver o rostos, crianças plastificadas em carrinhos de todos os modelos e tamanhos.
Na Hyde Park corner (Londres), a quantidade de crianças esperando o sinal abrir para atravessar a rua

Crianças passeando na chuva na Regent Street - Londres
 
Lá não dá para ter medo de frio. A maioria dos locais estão preparados para receber as mães e seus filhos pequenos. Tem banheiro família nos museus, aeroporto ou pequenos shoppings; você entra com o carrinho, troca a criança e pode fazer xixi tudo no mesmo banheiro! As calçadas são ótimas para andar com os carrinhos e podemos encontrar facilmente acesso por elevadores que funcionam.
Nas filas você nem precisa perguntar "Tem atendimento preferencial?!", porque é só aparecer com o bebê que logo alguém te passa para outra entrada.
 
Helena passeando no Museu de História Natural (Londres).
A Helena teve dificuldade para comer comida... não quis experimentar as deliciosas sopas servidas como entradas nos restaurantes. Preferiu comer frutas e as papinhas industrializadas, que podemos encontrar de várias marcas, sabores, preços, quantidade, fases... diferente daqui que só temos uma única marca! As frutas eram sempre as mesmas: banana e maçã. O mamão papaia, que ela adora, ficou difícil de encontrar. Em Paris, achamos em uma banquinha e custava uma fortuna: 15 reais cada um!!! E quando demos o mamão para ela no hotel, uma das funcionárias ficou muito curiosa ao ver essa nossa deliciosa fruta e até me pediu para experimentar. Mamão que vale ouro!!!
 
No Hyde Park (Londres).
O frio, a chuva, a falta das comidinhas rotineiras... nada é empecilho! Viajar com os filhos é trabalhoso, não vou esconder, mas é também muito prazeroso e divertido. O fato de termos levado apenas um dos nossos filhos, amenizou a saudade que sentíamos dos outros dois que ficaram. Estar só nós dois (marido e mulher), talvez, deixaria a viagem vazia e estranha... somos inteiros quando somos cinco!!! Ao contrário do que é dito por aí, é possível sim se divertir com as crianças, aproveitar uma viagem, sair no frio e na chuva. E voltamos todos sãos e salvos, com a bagagem lotada de histórias inesquecíveis para contar.